Muita gente coleciona carrinhos, outros bonecas e outros tantos bibelôs, como pequenas figuras de animais. Mas há apaixonados por literatura que fazem dos livros sua mais terna coleção. Este é o caso de José Mindlin, que se tornou conhecido no Brasil e no mundo por ser um dos maiores bibliófilos do planeta.
Sua coleção, iniciada aos 13 anos, ultrapassa a marca de 50 mil títulos. É essa vida entre livros e também entre inúmeras brincadeiras, artes, conversas e travessuras com os primos que compõe a obra direcionada às crianças “Reinações de José Mindlin”, escrita pelo próprio Mindlin e recém-lançada pela Editora Ática.
No livro, Mindlin, que tem 93 anos e outras três obras publicadas (para adultos), conta com graça e ternura fatos engraçados, confusões, castigos e muitas estripulias de sua infância, vivida na São Paulo de meados da década de 20 do século passado.
Nesse delicado passeio por suas lembranças, Mindlin mostra como era viver numa época em que o ensino do latim era obrigatório na escola, o recreio era separado para meninos e meninas e os garotos usavam calças curtas até a adolescência.
Assim como o comportamento, a língua também mudou: as estripulias de hoje em dia são as “reinações” que Mindlin aprontou no passado, num tempo em que o fantástico era uma coisa “do arco da velha”.
Na entrevista a seguir, concedida ao JC Criança por telefone, o autor conta sobre a experiência de escrever para a criançada, sua paixão por literatura e relembra alguns fatos engraçados de quando era garoto.
JC Criança – O que o motivou a escrever para crianças?
José Mindlin – O acaso. Ao visitar uma filha, vi que minha neta de 9 anos estava lendo algumas lembranças de infância escritas por adultos para crianças. Então, me questionei se também conseguiria fazer isso. Escrevi todo o texto em um final de semana e mostrei para minha neta, que leu de ponta a ponta e gostou. Dessa maneira, fiquei sossegado e pensei em publicar.
JC Criança – O senhor se sentiu inseguro diante desta primeira experiência com literatura infantil?
José Mindlin – A princípio sim, mas escrevi com muita naturalidade e tentei fazer com que o texto fosse praticamente uma conversa. Acho que me saí bem. Talvez tenha agradado crianças e até alguns adultos.
JC Criança – Qual mensagem o senhor quis levar para as criança por meio deste livro?
José Mindlin – Eu quis despertar a independência nas crianças. Quis mostrar que as peraltices, as travessuras, enfim, as “reinações” da minha época são coisas normais. Que a criança não deve se sentir na obrigação de estar comportada o tempo todo e, sim, ir formando sua personalidade espontaneamente, sem deixar de fazer coisas “de criança”. Eu me lembro de um episódio em que, quando garoto, pedi ao meu pai para fazer uma certa coisa, que não me recordo exatamente o que era. Meu pai disse que eu não podia. Então, perguntei por que e ele respondeu simplesmente que ‘porque não’. Naquele momento, pensei que aquele ‘porque não’ não era resposta e fiz o que queria fazer do mesmo jeito. Eu acredito que as crianças têm o direito de saber o porquê de fazer ou não as coisas e, em meu livro, procurei desenvolver o espírito de independência nos leitores.
JC Criança – As crianças devem ser desobedientes?
José Mindlin – Desobediência não é pecado. Me lembro de uma certa vez em que o professor de geografia me perguntou o nome de dez cidades do Egito, mas eu só sabia duas – Cairo e Alexandria. Então, inventei os outros oito nomes e tirei 10. Acredito que histórias como estas, contadas sem repreensão, podem despertar a curiosidade do público infantil.
JC Criança – Há alguma outra travessura que o senhor possa nos contar ?
José Mindlin – Uma certa vez, minha irmã ganhou uma linda boneca da bailarina russa Anna Pavlova, que era muito famosa e costumava freqüentar a minha casa. Mas, um belo dia, meu irmão mais velho e um primo resolveram brincar de inferno e colocaram a boneca no forno de pão. Gosto de contar histórias como esta!
JC Criança – O livro também resgata fatos históricos importantes?
José Mindlin – Além de contar minhas travessuras, eu também falei do contexto em que minha infância se passou. Acho que a garotada tem curiosidade de saber um pouco sobre isso. Tentei narrar fatos históricos de maneira didática e lúdica. A Primeira Guerra Mundial e a epidemia de gripe espanhola que assolou São Paulo em 1918 fizeram parte do cenário da minha infância.
JC Criança – O senhor usou alguma estratégia diferente para escrever para crianças?
José Mindlin– Apenas naturalidade, simplicidade e linguagem correta. Mas, no lançamento do livro, já avisei a garotada: “Vocês podem fazer as reinações que quiserem, só não vale me imitar”.
JC Criança – O senhor pretende escrever outros livros infantis?
José Mindlin – Adorei a experiência, mas não sei dizer. Não costumo planejar estas coisas. Acontecem por acaso. Se me der na cabeça eu escrevo, pois faço por prazer.
JC Criança - De onde vem sua paixão por literatura?
José Mindlin – Da minha vida inteira. Acho que, se não existissem livros no mundo, eu não gostaria de viver. Quando tinha cerca de 5 anos, eu já olhava para bibliotecas com interesse. Certa vez, eu estava com um livro aberto nas mãos e meu pai perguntou o que eu fazia, então, respondi com a maior naturalidade que estava lendo. Foi engraçado, pois quando meu pai viu mais de perto eu estava com o livro de cabeça para baixo. Meus pais sempre me incentivaram a ler... eles liam muito para mim. Mas fatos como este revelam que o interesse por leitura já estava dentro de mim.
JC Criança - Qual é a importância da literatura para as crianças?
José Mindlin – A literatura é uma fonte de prazer. A leitura jamais deve ser vista como obrigação. Deve ser incentivada como modo de diversão. Sendo assim, com certeza, os pequenos irão se interessar.
JC Criança - Existe algum livro que marcou sua infância?
José Mindlin – Vários. Um deles é “Pinóquio”.
JC Criança - O senhor ainda lê bastante?
José Mindlin – Agora tenho um problema na visão e não consigo mais ler. No entanto, as pessoas sempre lêem para mim.
JC Criança - Há algum livro preferido em sua coleção?
José Mindlin – Eu costumo dizer que meus livros são muito ciumentos, então, prefiro não falar de preferidos para não ter trabalho com os outros.
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Garimpo em sebos
Se você também adora literatura e é louco para ter sua própria biblioteca, a hora de começar a colecionar é agora.
O bibliófilo José Mindlin sugere que você não perca oportunidades de adquirir livros. Ele orienta que sempre que as pessoas lhe perguntarem o que você quer ganhar de aniversário, um livro seja uma boa resposta.
Além disso, vale a pena ir juntando algumas moedas para investir no seu sonho. Comprar livros em sebos são boas opções, pois nestes lugares você encontra uma infinidade de coisas e os preços em geral são mais acessíveis. Foi assim que José Mindlin começou!