Não é uma aula de história, nem deveria ser. “Se você falar que é uma aula, o teatro vai ficar vazio”, brinca José de Abreu. Mas é justamente na brincadeira e no riso que a peça “Fala, Zé!”, em cartaz hoje e amanhã no Teatro Municipal Celina Lourdes Alves Neves, conta momentos importantes do cenário político-cultural dos anos 60 e 70 no Brasil.
Quer exemplos? No clima do movimento estudantil dos anos 60, no congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE) em Ibiúna, 700 estudantes foram presos, inclusive José Dirceu e José Mentor, o ator José de Abreu estava lá. “Fiquei na mesma cela do Dirceu”, diz o ator.
No último show dos Beatles, no topo de um prédio em Londres, na Inglaterra, ele também estava lá. “Estava passando pela rua quando vi o tumulto entre as pessoas e a polícia. Naquela época, não tínhamos idéia que seria o último show da banda”, relembra.
Quer mais? Adivinha quem presenciou a cena quase lendária do cantor Roberto Carlos entregando a letra da canção “Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos” a Caetano Veloso? Pois é. “A minha geração viveu, de um lado, a tentativa de uma liberdade política, mas como a ditadura cercou-a de todos os lados, a conquista veio através das filosofias de vida dos hippies, dos hindus, a yoga, a meditação, e o transcendental”, diz Abreu.
Todas essas experiências são contadas através dos 20 personagens interpretados no palco. A maioria delas é verdadeira, apenas algumas são ficção. O ator já percorreu as terras do Chuí ao Oiapoque, literalmente. Passou pelo Rio Grande do Sul, Acre e agora está em cartaz no Interior do Estado de São Paulo. “Sou um caipira (ele nasceu em Santa Rita do Passa Quatro) que foi para a cidade grande e começou a fazer teatro. Gosto de contar minhas histórias e rir de mim mesmo e de ironizar os momentos que passei. Assim, crio empatia com o público. Costumo olhar nos olhos das pessoas”, fala o ator.
A peça já percorreu municípios grandes e pequenos, mas Bauru e outras cinco cidades do Interior do Estado foram escolhidas a dedo pelo ator, como locais aos quais ele faz questão de retornar. Zé de Abreu, como é chamado pelos amigos, já esteve em Bauru na infância, vivida entre Santa Rita do Passa Quatro e Birigüi.
“Quando penso em Bauru, a imagem que me vem à cabeça é a do trem, porque fazíamos baldeação na cidade”, recorda-se, falando do período entre 1955 e 1960, quando tinha entre 9 e 12 anos.
Seu avô, Domingos Lopes, foi um dos fundadores do município de Birigüi e tinha uma fazenda na região de Bauru. Agora, ele está curioso para rever a cidade. “Estive na região, em Botucatu e Jaú, em 1994, mas não deu para ir até Bauru. Agora vai dar certo”, conclui.
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Bagagem de trabalho
O ator José de Abreu tem mais de 40 anos de carreira, incluindo um período de exílio político em Londres. No teatro, fez trabalhos como “A Prova”, de Aderbal Freire-Filho; “A Mulher Sem Pecado”, de Luiz Arthur Nunes; “Em Nome do Pai”, de Alcione Araújo; “O Beijo no Asfalto”, de Nelson Rodrigues; e “O Beijo da Mulher-Aranha”, de Manuel Puig. Nos cinemas, fez “Mauá: O Imperador e O Rei”, “Doces Poderes”, “O Cineasta da Selva”, “Canudos” e “Lamarca”.
Na TV, teve trabalhos de destaque em “Senhora do Destino”, “A Casa das Sete Mulheres”, “A Muralha”, “A Indomada”, “Renascer”, “Pantanal”, “Bebê a Bordo” e “Amazônia – De Galvez a Chico Mendes”, entre muitos outros.
• Serviço
Comédia “Fala, Zé!”, com José de Abreu, será apresentada no Teatro Municipal Celina Lourdes Alves Neves hoje às 21h e amanhã às 20h. Espetáculo recomendado para maiores de 12 anos. Ingressos à venda na bilheteria do teatro: R$ 30,00, R$ 20,00 (com bônus veiculado no Jornal da Cidade) e R$ 15,00 (meia-entrada para estudantes, pessoas acima de 60 anos, professores da rede pública de ensino). Mais informações: (14) 3235-1072 e 3214-3436.