09 de julho de 2026
Geral

Alimentação personalizada vai prevenir doenças graves

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 4 min

Aquele velho ditado chinês que diz “você é o que você come” nunca se mostrou tão verdadeiro como agora. O desenvolvimento da nutrigenômica - resumidamente, o estudo da forma como nossos genes interagem com os nutrientes que ingerimos ao longo da vida - tem mostrado que a relação entre o padrão alimentar que adotamos e a nossa saúde é maior do que as pessoas costumam imaginar.

Graças às recentes descobertas feitas pela ciência, pesquisadores estão próximos de desenvolver dietas personalizadas para cada indivíduo. Dentro de pouco tempo, teremos condições de, pela alimentação, corrigir as deficiências herdadas de nossos antepassados; adotando novos hábitos alimentares, conseguiremos reduzir de maneira significativa nossas chances de desenvolver doenças graves, como câncer ou problemas cardiovasculares.

A nutrigenômica é uma ciência nova; surgiu há cerca de sete anos, quase concomitantemente nos Estados Unidos e na Europa. “Por meio dela”, explica Lucia Regina Ribeiro, professora do programa de pós-graduação em patologia da Faculdade de Medicina da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Botucatu, “já se descobriu que certos nutrientes são capazes de alterar a expressão dos genes (podendo ter a sua ação estimulada ou inibida) e influenciam na manifestação ou não da doença, seu desenvolvimento e sua progressão. Ou, ainda, que variações genéticas individuais afetam a forma como os nutrientes são assimilados, metabolizados, armazenados e excretados pelo organismo”, salienta ela, que é coordenadora das Redes Brasileira e Latino-Americana de Nutrigenômica.

Ribeiro, que também coordenará a “International Nutrigenomics Conference”, a ser realizada no Brasil, em outubro de 2010, afirma que “até agora, cerca de mil genes humanos ligados a doenças já foram identificados, assim como os nutrientes que têm ação sobre eles.”

De acordo com ela, pesquisadores norte-americanos descobriram, por exemplo, que variações no gene APOA1 são capazes de afetar de modo diferente os níveis de colesterol bom (o chamado HDL) na pessoa.

“Até então, os cientistas acreditavam que toda pessoa que adotasse uma dieta rica em ácidos graxos poli-insaturados (ômega 3 e 6) conseguiria aumentar as taxas de HDL e, conseqüentemente, afastar os riscos de doenças cardiovasculares. Agora já se sabe que não é bem assim. Algumas mulheres, com determinada variação do gene APOA1, podem ter uma resposta oposta ao consumo do ômega 3 e 6, ou seja, baixar os níveis do bom colesterol, o que não é bom para saúde”, diz a professora.

Segundo ela, cientistas já teriam descoberto os genes que predispõem o organismo a consumir mais calorias, além de outros que influenciam a preferência por cafeína e doces. “Assim que soubermos todos os componentes alimentares que interagem com esses genes, teremos um caminho para controlar o apetite, a absorção de nutrientes, entre outros aspectos envolvidos na digestão. Tudo por meio da alimentação”, acredita ela.

Desde criancinhas

A interação entre aquilo que ingerimos no dia-a-dia e nossos genes começa cedo - mais precisamente, durante nossa vida fetal. “Há uma programação para o desenvolvimento do organismo que não é linear. O crescimento se dá por surtos de tecidos, órgãos e sistemas. Para que isso ocorra, são necessárias diferentes concentrações de determinados nutrientes que o irão compor”, explica Hélio Rocha, professor da disciplina de nutrologia pediátrica no departamento de pediatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

“Ocorre que esses surtos têm um tempo limitado e geralmente antecedem a outros. Quando um sistema não fica completo, ele passa a carregar consigo danos que serão permanentes. Dessa forma, a saúde, a inteligência, as habilidades, bem como a predisposição a outros fatores ambientais ficam alteradas”, alerta ele.

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Frutas versus câncer?

Entre as descobertas feitas no campo da nutrigenômica, talvez as mais animadoras sejam as relacionadas à prevenção do câncer e das doenças cardiovasculares, dois dos principais fantasmas que atormentam a sociedade moderna quando o assunto é saúde.

De acordo com o oncologista bauruense Paulo Eduardo de Souza, pesquisas recentes publicadas nos Estados Unidos apontam que indivíduos que adotam uma dieta rica em frutas (cerca de cinco porções diárias) vêem seus riscos de desenvolver um câncer caírem em cerca de 20%. “Quando essa mudança de hábitos alimentares vem acompanhada da prática regular de exercícios físicos, as chances de a pessoa ter a doença diminuem em até 40%”, afirma.

A pesquisadora Glorimar Rosa, do departamento de nutrição e dietética do Instituto Josué de Castro da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), lembra que a proposta dos tratamentos baseados na nutrigenômica “é atuar preventivamente, de forma personalizada”. Isso é diferente, por exemplo, do velho conceito de alimentação balanceada, que tenta atender às necessidades de diferentes indivíduos e não é personalizada.

Ela acredita que, dentro em breve, por conta do avanço científico, seremos capazes de evitar o surgimento de doenças graves em nosso organismo graças à dieta que adotamos, mas faz uma ressalva.

“Infelizmente, aqui no Brasil, observamos um Estado desenvolvido como o Rio de Janeiro sendo acometido por uma epidemia de dengue. Inúmeras pessoas estão morrendo por causa de um mosquito. Isto me leva a crer que as autoridades governamentais não estão acompanhando a evolução da ciência que vem sendo produzida em nosso País”, critica.