11 de julho de 2026
Geral

Entrevista da semana: Márcia Nuriah - ‘O papel do artista precisa ser rediscutido’

Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 11 min

Uma pessoa liberal, que acredita na liberdade e na igualdade, mas já perdeu a fé na fraternidade. Assim se auto-define a bailarina Márcia Nuriah, 42 anos, que já viajou o mundo exibindo suas habilidades com a dança do ventre e outras mais clássicas.

Natural de Santos, seu nome de batismo é Márcia Correa Silva. O Nuriah foi incorporado mais tarde, como nome artístico. Ela já morou na Inglaterra, Egito, Israel, Alemanha e Holanda, onde teve sua primeira filha, de parto natural, sem anestesia e sem cortes. Repetiu a dose no Brasil, quando nasceu a segunda filha. “Acho um absurdo todo mundo fazendo cesária. O parto é um momento crucial na vida de uma mulher”, afirma.

Enquanto jovem, acreditava demais no poder de transformação do ser humano. Hoje, está um tanto quanto desiludida. “Acho que a vaidade tornou-se grande demais dentro da sociedade, como resultado desse sistema consumista que vivemos.”

Na opinião dela, o papel da arte e do artista precisa ser rediscutido diante desse apelo ao consumo desenfreado. “Eu acho que as pessoas estão sendo conduzidas pelo mercado de consumo. Ninguém questiona nada. E enquanto isso, existem artistas que ficam massageando o ego ao invés de gritar para a sociedade e dizer que não é nada disso”, critica.

Membro da Confederação Interamericana de Dança e do Conselho Internacional da Dança, órgão vinculado à Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), Nuriah trabalha atualmente como coreógrafa e professora.

Na entrevista concedida ao Jornal da Cidade, ela conta um pouco da sua vida, das suas crenças e descrenças, das aventuras no Exterior e como foi seu primeiro contato com a cultura árabe.

Jornal da Cidade – De onde vem o nome Nuriah?

Márcia Nuriah – Nuriah é um nome artístico. É uma praxe entre os artistas adotar nomes normalmente mais curtos que o de batismo. E a praxe entre as bailarinas de ritmos árabes é adotar nomes de origem árabe. Então, eu quis continuar com Márcia, que é meu nome de batismo, e Nuriah, em árabe, significa iluminada. Achei o significado muito legal e eu também era fã da rainha Nur, mulher do rei Hussein, da Jordânia. Ela foi rainha na época que eu morava em Israel, que fazia fronteira com a Jordânia. Para mim, ela foi um exemplo de mulher. Primeiro, porque ela tinha um carinho muito grande pelo marido, ela valorizava a família, era uma mulher ousada na maneira de se vestir para os padrões árabes. Não digo que ela foi uma ativista feminista, mas sem fazer alarde, ela criou um comportamento muito liberal para as mulheres. E as rainhas são muito imitadas. Além disso, ela era linda.

JC – E sua origem familiar? De onde vieram seus pais e avós?

Nuriah – A família da minha mãe descende de portugueses, que vieram na época da coroa (quando os reis de Portugal eram os donos do Brasil), e italianos da Calábria. Corre uma lenda na família, que esse primeiro português, de quem teria derivado o sobrenome Corrêa, que é o da minha família, caçou uma índia e que viveu e teve muitos filhos com ela. Mas nós não temos documentos que comprovem isso. Tem outra curiosidade da família Corrêa. Teve um que foi muito rico, tinha muitas terras, e teve muitos filhos. E ele ficou revoltado com os filhos, quando viu que eles estavam disputando a herança do pai, que ainda estava vivo. Então, ele fez um testamento mandando pular oito gerações para depois distribuir o espólio dele. Era para que os filhos não chegassem nem perto da herança. Com isso, ele deixou todos os filhos duros, sem nada, eles tiveram de trabalhar para conquistar alguma coisa. Nós não sabíamos até que ponto isso era verdade, porque a minha família é cheia de lendas. Mas meu avô foi atrás e descobriu que isso era verdade, que realmente existia esse testamento. Foi formada uma cooperativa dos Corrêas, com mais de 200 pessoas, eles entraram com uma ação judicial, reuniram documentos e, no fim, receberam a herança. Meu avô herdou um sítio em Guararapes (cidade próxima a Araçatuba). Muitos, apesar de fazerem parte da oitava geração dos Corrêas, não conseguiram comprovar a descendência. Naquela época, era comum botar fogo em cartório, principalmente nos locais onde havia disputa de terras. Por isso, eu acredito que também sou descendente de índio por parte de mãe.

JC – E por parte de pai, qual é a sua descendência?

Nuriah – Meu pai descende de ingleses e franceses, com portugueses no meio. A vinda da família dele para o Brasil é muito obscura. Não tem documentação e eles também nunca tentaram levantar. Mas meu pai tem cara de árabe. Eu tenho cara de árabe. Tanto que foi complicado para mim, por causa dos traços árabes, quando fui morar em Israel. Quando eu vou para a Europa, também é complicado. Já fui barrada em aeroporto. Mas eu não carrego nenhum sobrenome árabe e oficialmente também nenhuma descendência. Por isso que eu falo que sou uma brasileira verdadeira. Porque eu tenho uma mistura de raça enorme: é português, italiano, inglês, francês, provavelmente árabe ou judeu e com possibilidade de ter um pouco de sangue indígena.

JC – E quando foi que nasceu essa sua identificação com a cultura árabe?

Nuriah – Como toda menina com uma boa carga de imaginação, eu tinha um deslumbramento com o Egito. Eu queria conhecer o país e suas pirâmides. Mas primeiro eu fui estudar inglês na Inglaterra. Fiquei maravilhada com a organização do povo, mas o inverso era tenebroso. No começo, eu achei lindo, porque tinha neve. Mas chegou uma hora que toda aquela beleza do inverno não me agradava mais. Eu decidi, então, ir para um país quente, mas não queria voltar para o Brasil. E aí eu fui parar no Egito. Sofri muito lá, porque eu esperava encontrar Cleópatra nos braços de Marco Antônio. Em vez disso, dei de cara com um bando de muçulmano que não me deixava andar de roupa com alcinhas e shortinho. Não tive problemas com o idioma porque lá todos falam inglês. O Egito foi um país colonizado pela Inglaterra.

JC – Você morou no Egito?

Nuriah - Eu nunca gostei de fazer turismo, de viajar para ver, fotografar e vir embora. A maior parte das pessoas que vai para o Egito, viaja em trem que só tem turista, tira fotos de todos os lugares e sai de lá dizendo que conhece o Egito. Não conhece nada. É a mesma coisa do turista que vem para o Brasil, vai conhecer uma quadra de escola de samba no Rio de Janeiro, tira fotos com mulata, depois passeia pela avenida Paulista, em São Paulo, e vai embora dizendo que conhece o Brasil. Não conhece não. Eu sempre gostei de entender como as pessoas vivem e pensam. Para isso, é preciso trabalhar nesses lugares, mas não é fácil porque precisa de visto. Eu fiquei três meses no Egito. Os primeiros dias foram muito sofridos. Depois, eu arrumei algumas roupas condizentes com a cultura deles e fui para lugares onde os turistas não vão. Eu tinha um amigo que viajava comigo, porque lá mulher não pode viajar sozinha. Foi nessa época que eu vi a dança do ventre pela primeira vez. Achei horrível. Mas, na verdade, estava sendo plantada ali uma semente que germinaria mais tarde. Esse foi meu primeiro contato com a cultura árabe.

JC – O que aconteceu depois disso?

Nuriah – Depois disso, eu voltei para o Brasil. Claro que não suportei ficar em Bauru. Fui passear no Pantanal e lá conheci alguns israelenses. Os caras moravam em um kibutz (comunidade predominantemente agrícola) e tinham uma estufa onde produziam begônias e orquídeas para exportação. E eles precisavam de uma bióloga brasileira para trabalhar lá. Como eu estava cursando biologia, aceitei fazer um estágio lá. Era a oportunidade que eu estava esperando de viver em um kibutz, onde imperava o comunismo. As pessoas eram muito idealistas. Foi assim que eu fui parar em Israel. Vivi lá durante cinco anos. Fui muito feliz. Foi uma experiência superlegal. Foi aí que eu me aprofundei na cultura árabe, que eu fui para uma escola de dança. Israel era um país mais rico, mais limpo, menos radical, eu podia andar sozinha, nadar de biquíni na praia, andar de short. Depois desses cinco anos em Israel, voltei para o Brasil e fui morar em Ilhabela. Fiquei dois anos lá.

JC – E por que você foi para Ilhabela?

Nuriah – Depois de passar por tanta loucura na vida. Eu passei dez anos fora do Brasil. Isso aconteceu entre os 18 e 28 anos, que é uma época que você termina de formar sua personalidade. Passei por esse processo debaixo da influência de várias culturas. Tudo aquilo deu um nó na minha cabeça. Enquanto eu vivia intensamente as transformações no mundo, muitas pessoas ficaram sentadas da cadeira de um boteco. Então, não dava para conversar. Fui para Ilhabela porque era uma cidade sossegada. Durante a semana não tinha uma alma na cidade. Eu ficava sozinha na praia. De fim de semana, eu ia para São Paulo fazer curso e devagar fui me encontrando. Quando achei que tinha voltado para o eixo no Brasil, casei com um holandês e fui morar na Holanda.

JC – Suas filhas nasceram na Holanda?

Nuriah – Só a primeira. A segunda não deixei nascer lá não, eu vim para o Brasil. Ninguém merece ter filho na Holanda, sem falar o holandês direito. Eu não conseguia me comunicar com o médico. E eu sou uma louca, naturista. Fiz questão de ter dois partos normais, sem anestesia e sem cortes. No dia do segundo parto, nasceram 16 crianças e só a minha foi de parto normal. Só no Brasil que isso acontece. E foi difícil achar um médico que topasse fazer o parto. Ainda mais na minha idade. Eu tinha quase 40 anos. O médico só topou porque eu tinha tido minha primeira filha há pouco tempo. Eu disse para o médico: ‘eu te garanto que eu agüentei, que meu marido agüentou, foi tudo bem e a gente vai fazer de novo’. Ele foi muito legal.

JC – E por que a decisão de ter dois partos sem anestesia e sem cortes?

Nuriah – O parto é um momento crucial na vida de uma mulher. É quando você se transforma realmente numa mulher. Depois, é uma questão feminista mesmo. O momento que você da à luz uma vida é especial. Quando a mulher faz cesariana, ela dorme e acorda mãe. O médico corta a barriga, como se não tivesse por onde sair o filho. Como se a mulher não tivesse nascido já preparada para esse momento. Ela fica passiva nessa hora. No parto natural, a mulher é ativa. O médico está ali para te orientar e segurar o bebê. Conforme você tem dor, você faz força. Quando você faz força, a dor passa. Quanto mais dor, mais força você faz. E é essa força que você precisa, que só a dor é capaz de fazer você fazer essa força, para sua criança nascer. Então, você se torna ativa nesse momento. É você que tem as rédeas. Quando o parto termina, você se sente uma heroína. Eu me senti a poderosa. Porque quem fez meu parto fui eu. A partir daquele momento, você nunca mais vai aturar de homem nenhum que eles são superiores a você. Porque se eles existem é porque uma mulher o colocou no mundo. Eu acho que hoje as pessoas são muito conduzidas. Elas são conduzidas pelo mercado de consumo. Seja magra, vista tal coisa, assista tal programa, consuma tal produto. Ninguém questiona nada. Se as pessoas consomem a mesma coisa fica mais barato para as empresas, porque elas produzem menos variedades e economizam matéria-prima. Será que as pessoas não enxergam isso? Enquanto isso, existem artistas que ficam massageando o ego ao invés de gritar para a sociedade e dizer que não é nada disso.

JC – Você acha que falta uma postura mais ativa de alguns artistas?

Nuriah - Eu nunca tive um deslumbramento com a vida de artista porque eu sou filha de bailarina. Eu vejo pessoas maravilhosas se transformarem em algo negativo, porque se deixam perder através da vaidade dentro do meio artístico. A arte não existe para o artista exercer sua vaidade. Ela tem um significado muito mais profundo. Ela existe para transformar a humanidade.

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Perfil

Nome: Márcia Nuriah

Idade: 42 anos

Local de nascimento:Santos

Marido: Robin Sier

Filhas:Melissa e Anna Iris

Hobby: “Fazer escultura em cerâmica”

Livro de cabeceira: “Sonhos de Transgressão”, de Fátima Mernissi e alguns de Ítalo Calvino

Filme preferido: “As produções independentes européias”

Estilo musical predileto: Música étnica (árabe, indiana, etc) e blues

Time: Não acompanho futebol

Para quem dá nota 10: Para Michael Moore e Al Gore

Para quem dá nota 0:Para o fascismo e suas vertentes: racismo, xenofobia e consumismo