No próximo sábado, o Sesi será palco, às 18h, de um desafio que promete tirar o fôlego dos entusiastas de lutas marciais. De um lado, o secular Kung Fu, do outro, o jovem kickboxing, surgido na década de 70. Para apimentar mais o confronto de técnicas, o duelo opõe duas mulheres: Ana Cláudia Fatia, da Associação Garra de Tigre/USP/Semel, e Dayana Camargo, da Bauru Top Fight/Evolução/Choque Team. Além de técnicas diferentes, a luta também será um choque entre experiência e inexperiência e serve como teste na preparação das lutadoras para diferentes objetivos.
Fatia tem vários títulos paulistas e brasileiros no currículo, além de ter conquistado o terceiro lugar na Copa do Mundo de Kung Fu, em Pequim, no ano passado. No momento, se prepara para a disputa do Pan-Americano de Kung Fu, que será realizado em Curitiba, no mês de junho, e para a Copa do Mundo de Kung Fu (Sanshou), competição exclusivamente de combate, que reúne apenas os quatro melhores do mundo em cada categoria e está marcada para setembro, na China.
Já Camargo começou a treinar kickboxing há quatro meses e fez apenas uma luta na carreira, há uma semana, pelo Circuito CBKB. A lutadora se prepara para o Campeonato Brasileiro de Kickboxing, de 1 a 4 de maio, em São Paulo, e pretende pleitear o cinturão paulista de K1, em luta que aconteceria em Bauru, no dia 1 de agosto, aniversário da cidade.
O idealizador do desafio bauruense foi o técnico de Fatia, Richard Leutz. O projeto surgiu após o técnico da Seleção Brasileira de Kung Fu, Marcus Vinícius Alves, proibir que atletas do selecionado disputassem competições regionais.
“No ano passado, teve uma disparidade de nível muito grande (nas seletivas regionais). Às vezes, um atleta que está começando pode pegar outro que já é da Seleção. Então, teve muita gente que se machucou ou desistiu, porque o adversário era de Seleção. Acabava ficando ruim para o atleta da Seleção, que não lutava, e para o iniciante, que ficava traumatizado. Este ano, ele (Marcus Vinícius) proibiu todos os atletas de Seleção de lutarem os Regionais, mas recomendou que os organizadores montassem lutas especiais para continuar com ritmo para o Pan-Americano”, explica Leutz.
Assim, surgiu o projeto da luta contra Camargo. “A idéia foi essa: manter o ritmo e fazer uma luta em Bauru, porque há muito tempo ela (Fatia) não luta aqui. O pessoal vê o resultado do Mundial, mas nunca a viu lutando. Eu queria trazer ela para cá”, afirma Leutz.
Convite feito, convite aceito. O técnico de Dayana Camargo, Délcio Pereira, acredita que a luta pode contribuir muito para sua aluna pular etapas em sua preparação. “A gente (Top Fight e Garra de Tigre) tem sempre um intercâmbio entre atletas. Tem uma parte do kung fu que tem lutas de contato, que são similares com a parte de combate real do kickboxing. Esta luta casada entre as duas atletas vai contribuir bastante para o rendimento. A Dayana está começando agora e tem apenas uma luta no kickboxing, mas é uma guerreira e está com muita vontade”, diz.
Pereira lembra também da dificuldade para se conseguir bons combates femininos e ressalta o alto nível da adversária de sua aluna. “É difícil de conseguir lutas, quando se trata de mulheres. Em Bauru, nós temos somente a Dayana e a Ana Cláudia. A Ana Cláudia primeiro, claro. Ela vem fazendo sucesso no kung fu e é um ótimo páreo para a Dayana, que vai começar contra uma top. Isso, para nós, está sendo uma soma muito valorosa. É uma oportunidade que o Richard (Leutz) criou para a Ana Cláudia não ficar sem ritmo de luta e para a Dayana se engatilhar também”, argumenta.
Segundo Pereira, o kickboxing vive a expectativa de se tornar esporte olímpico e já faz parte dos Jogos Sul-Africanos e dos Jogos Asiáticos.
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As duelistas
As duas lutadoras vivem a expectativa de lutar em casa. Ana Cláudia Fatia não participa de um combate em Bauru há mais de três anos. Dayana Camargo nunca lutou na cidade. Pelo fato das duas artes marciais terem golpes parecidos - socos e chutes - o desafio vai ter as regras do kung fu, mas com a permissão de joelhadas, técnica do kickboxing. O ringue será aberto, sem cordas. Assim, Fatia e Camargo encaram a luta como um estágio do treinamento, sem a pressão de sua competições oficiais.
“Vai ajudar as duas artes (marciais). Na minha área, é um treino. Por não ser uma competição de kung fu, fica um pouco mais tranqüilo em relação à obrigação de ganhar. Vai ajudá-la também, porque ela também está se preparando para disputar os campeonatos dela. Esta troca é para ter um ritmo de luta cada vez melhor e conseguir lutar em eventos mais importantes”, considera Fatia.
Camargo vai pelo mesmo caminho. “Vai servir como teste para saber como está o nosso treinamento, como está o andamento e o que vou poder utilizar depois. São técnicas não tão diferentes, o kung fu tem as quedas e o kickboxing, as joelhadas. A gente vai poder aplicar os dois. Em relação a chutes e socos é praticamente a mesma coisa”, esclarece. Quanto ao ringue ser aberto, como no kung fu e sem as cordas usadas no kickboxing, Camargo não vê grandes problemas. “A gente treina sem cordas e acredito que não vai atrapalhar.”
A diferença entre as lutadoras fica por conta do peso e da experiência. “A Ana tem boas chances, porque tem mais experiência. Talvez esta seja a principal vantagem dela, já que ela (Dayana) é bem mais pesada, cerca de sete quilos. Isso para luta de contato é uma vantagem. O atleta mais leve tem um pouco de desvantagem, mas como a Ana está bem preparada e sempre luta com adversárias mais pesadas, achei que não iria ter problema”, comenta Richard Leutz.
Mais pesada, mas com pouca experiência, Camargo lembra que Fatia é muito rápida e revela que pretende aproveitar o combate para ganhar bagagem. “Na luta que tive no último sábado (dia 29, contra Suellen Souza, pelo circuito CBKB WAKO), a adversária era mais experiente e, com certeza, acrescentou muito para mim a experiência dela. Com a Ana, vai ser a mesma coisa.”
Para Fatia, também será uma experiência inédita. “É difícil ter mulher para treinar, a não ser durante os eventos especiais ou competições. É bom sempre fazer estas lutas para ter um ritmo de luta melhor. Porque treinar é uma coisa e pegar adversários diferentes, experiências diferentes pode ajudar na minha competição principal, para qual estou me preparando.”