09 de julho de 2026
Cultura

Sobre mundos: Uma cegueira sutil

Por Padre Beto* | Especial para o JC
| Tempo de leitura: 4 min

O filme de Toni Venturi “Cabra-Cega” é uma mescla entre romance e thriller político que envolve dois militantes da luta armada. Em 1971, dois jovens são obrigados a viver em um apartamento, escondidos da repressão militar. Neste ambiente quase claustrofóbico, tem início um relacionamento entre Tiago e Rosa, que a princípio não é nada amistoso, mas que, aos poucos, vai se tornando algo profundamente humano.

O pano de fundo é um Brasil amordaçado e sem liberdades democráticas. Tiago, o comandante de um “grupo de ação” de uma das organizações da ultra-esquerda, ferido à bala em uma emboscada da polícia, sente-se extremamente frustrado com a força do Estado militar e a ineficiência das organizações de esquerda. Rosa, uma militante de base e filha de operário, é o único contato de Tiago com a vida e a sociedade e, aos poucos, com a fantasia.

O projeto de derrubar a ditadura pela violência havia fracassado completamente com a morte de Lamarca e uma dura perseguição a suspeitos. Tiago e Rosa não possuem outra saída a não ser a sobrevivência e por sorte se sentem atraídos mutuamente não somente pelos ideais políticos, mas pelo sentimento de manter o outro vivo. Sem clichês, “Cabra-Cega” radiografa, de dentro para fora, as próprias contradições internas da luta armada daquela época.

Através de uma ótica intimista de um revolucionário, o filme se abre aos poucos, se explica lentamente até chegar aos planos mais abertos de imagens. Ou seja, ele se comporta, esteticamente, da mesma forma que Tiago realiza seu rito de passagem de guerrilheiro radical que não pode sequer ser visto através da janela, a homem completo que se permite ao amor e comer uma macarronada a céu aberto.

“Cabra-Cega” é um filme obrigatório não somente porque registra um passado próximo, do qual as novas gerações estão pouco conscientes de seu significado, mas porque nos ensina que o indivíduo diante das estruturas político-sociais deve adquirir um talento especial: a paciência histórica.

A exigência de produção por parte da sociedade capitalista, a necessidade de ser produtivo para sobrevivermos, a cada vez mais acelerada evolução tecnológica e a rapidez dos meios de comunicação provocaram mudanças significativas em nossa forma de perceber o universo que nos circunda. Hoje, temos a impressão que o tempo passa com muito mais rapidez e somos tomados por certa ansiedade em relação ao futuro. Acontecimentos históricos que possuem testemunhas ainda vivas parecem estar em um tempo distante demais.

Falar sobre a ditadura militar, por exemplo, não possui grande interesse para as novas gerações. Todos os dias, levantamos com sede de novidades e nos cobramos várias vezes em relação ao fruto do nosso trabalho. Entre nós tornou-se cada vez mais comum uma postura imediatista que nos faz avançar diante de nossos objetivos, mas também nos impede de saborear a vida e respeitar o seu ritmo natural. Diante de nossos projetos, queremos ver os resultados o mais rápido possível, afinal, a sociedade procura sempre nos lembrar que “tempo é dinheiro”.

Aristóteles já afirmava que “em tudo o que fazemos, temos em vista alguma outra coisa”, porém a ansiedade em alcançá-la tornou-se uma doença crônica. Neste contexto, a palavra “paciência” parece ter adquirido um acento pejorativo e se transformado em algo antiquado para o nosso tempo. Sem dúvida alguma, a “paciência-resignação” é sinal de estupidez, mas a paciência atenta e meditativa, esta sim nunca foi tão necessária na atualidade. Reaprendê-la em nosso itinerário humano é um verdadeiro exercício de pura sabedoria.

A paciência não significa comodismo, braços cruzados, acomodação ao sistema. A paciência saudável deve ser lúcida, vigilante e em constante interação com a realidade. Ela deve nos fazer enxergar o contexto em que vivemos, tanto em nossa vida particular como em nossa vida social. Ter paciência histórica significa saber que tudo possui sua hora e que as coisas, e principalmente os seres humanos, precisam de tempo. Mas para conhecer este tempo e a paciência não se tornar alienação é necessário o conhecimento de nossa caminhada histórica e a sintonia com aquilo que gerações passadas vivenciaram, construíram, destruíram e agora temos que conviver, usufruir e transformar.

Quem não perde o rumo da história não só deve possuir paciência consigo mesmo, mas uma compreensão da mentalidade de seu próprio povo. Porém, paciência não é sinônimo de inércia. A paciência serve para se instruir, para se preparar e agir no momento certo. Aqui está o grande objetivo da paciência histórica: conhecer o universo humano para não desumanizar ainda mais o sistema e sim transformá-lo radicalmente em um universo de vida para todos. A ansiedade é uma das armas da sociedade neoliberal que nos leva à cegueira política e à alienação de nossas ações, vontades e da nossa própria vida.