09 de julho de 2026
Política

Governo alerta que o combate à dengue terá de ser contínuo

Por Fábio Zambeli | Da APJ, especial para o JC
| Tempo de leitura: 9 min

A reincidência de epidemias de dengue exigirá dos cidadãos e do poder público mudança permanente de hábitos e uma cultura incessante de combate à doença, a exemplo de procedimentos já incorporados à rotina da saúde pública do País como as campanhas de vacinação antipólio. A avaliação é da coordenadora de Controle de Doenças da Secretaria Estadual da Saúde, Clélia de Souza Aranda. Para ela, o esforço para deter o contágio e neutralizar o perigo que ronda o Estado é uma ação ‘para sempre’.

“Tem que ser um hábito constante. Naquele período que o mosquito (Aedes aegypti) pode proliferar menos, eu tenho que continuar insistindo, pois, quando chegar o verão, eu já fiz ações que impedem e diminuem o progresso da doença. É uma coisa que é para sempre. Nós teremos que ter este hábito para sempre. Nunca mais eu, cidadão, vou poder deixar de fazer”, diz Clélia, 50 anos.

Para a médica pediatra, o corredor entre Rio de Janeiro e São Paulo, que permite intensa circulação de pessoas entre os dois Estados, é motivo de preocupação para as autoridades sanitárias paulistas dada à explosão de casos em solo fluminense.

“O fluxo de pessoas nos preocupa. Pois, além de ser um Estado vizinho, temos um fluxo de pessoas entre Rio e São Paulo bastante intenso. Paulistas podem viajar ao Rio e ficarem doentes, voltarem para São Paulo e a gente precisa estar atento para fazer o diagnóstico aqui.”

A responsável pela política pública de controle de doenças no território paulista atribui os indicadores que mostram o regresso da dengue no primeiro trimestre de 2008 à ação massificada de ataque aos focos do mosquito transmissor no segundo semestre do ano passado –os números oficiais indicam uma queda de 97,1%, com 1.297 registros ante os 44.760 dos primeiros três meses de 2007.

A especialista afirma que as cidades que merecem cuidado redobrado do governo são Araraquara, Ribeirão Preto, Mogi Guaçu, Bauru e Americana. Nestes pontos, os mutirões da Superintendência de Controle de Endemias (Sucen) farão operações pontuais com reforço nas equipes de agentes.

Segundo Clélia, o alerta no momento é para o diagnóstico rápido dos casos suspeitos e o respectivo tratamento em razão do avanço dos sorotipos mais graves - e letais - da moléstia. Para tal tarefa, o Estado ampliou os programas de capacitação de monitores em cada uma das 28 microrregiões atendidas pela secretaria.

“Não são todos os casos graves, que eu precise internar, tomar medida mais agressiva no tratamento. Mas, preciso ser capaz de identificar estes casos para tratá-los adequadamente”, diz. Leia a seguir os principais trechos da entrevista.

Jornal da Cidade - Há motivos para que o Estado de São Paulo se preocupe com a explosão de casos de dengue no Rio de Janeiro, com elevado índice de mortalidade? Clélia Maria Sarmento de Souza Aranda - A preocupação é das pessoas que podem estar circulando no Rio de Janeiro, ou por serviço ou por passeio, que, ao retornarem, possam ter algum sintoma. Seria importante que as pessoas saibam que isso está acontecendo lá. Elas podem ficar doentes ao visitar o Rio de Janeiro. O Rio nos preocupa pelas pessoas que circulam lá.

JC- Mas o fato de ser um Estado vizinho não aumenta o risco? Clélia- Pelo fluxo de pessoas. Porque não é que vamos ter fluxo do vetor. É uma coisa mais difícil de acontecer. Mas o fluxo de pessoas nos preocupa. Pois, além de ser um Estado vizinho, temos um fluxo de pessoas entre Rio e São Paulo bastante intenso. Paulistas podem viajar ao Rio e ficarem doentes, voltarem para São Paulo e a gente precisa estar atento para fazer o diagnóstico aqui. Assim como tem pessoas que venham visitar São Paulo e fiquem doentes ao estarem aqui. Aí nós precisamos saber onde elas transitaram. Isso é um alerta.

JC- O Estado não pretende empreender ações neste sentido nas fronteiras? Clélia- Não. A ação é contínua. Uma pessoa que esteja doente, entre ela ser picada e manifestar a doença, existem alguns dias de intervalo. Neste momento ela pode transmitir a doença para outros mosquitos que a piquem. Então, o risco desta doença vir do Rio de Janeiro para cá, por exemplo, é uma pessoa que esteja infectada, venha para cá, o mosquito aqui pique e aí comece este mosquito a transmitir para várias pessoas. Isso tudo leva vários dias. Vamos supor que tem um município que não tenha a doença, mas ele tem o mosquito. Vem uma pessoa doente e, durante aquele período os mosquitos da cidade picam aquela pessoa. Dali a uns nove a doze dias, começam a transmitir. Desde a chegada da pessoa até que se transmita existe este intervalo. Por isso é que temos que estar atentos às suspeitas da doença. Com o suspeito eu já tenho medidas a serem tomadas.

JC- Quais seriam estas medidas iniciais com o suspeito? Clélia- A medida que eu conheça suspeitos numa determinada região, eu preciso ficar atento àquele local. Se existe infestação de mosquito, se eu preciso remover criadouros. Quando eu começo a ter casos confirmados, eu preciso identificar se ela pegou a doença fora da cidade ou na minha cidade. Estas ações sempre existem para qualquer momento da dengue.

JC- Neste sentido preocupa o avanço de casos de sorotipos mais letais no Rio? Clélia- O aparecimento de vários sorotipos preocupa, porque existe a possibilidade de as pessoas serem infectadas mais de uma vez. Por outros subtipos. Esta preocupação sempre existe. Em São Paulo, já tivemos a detecção dos três sorotipos nos últimos anos. A maior parte identificada é tipo 2 e tipo 1.

JC- O fundamental neste momento é o diagnóstico rápido? Clélia - A partir do momento que eu tenho a infestação, eu preciso cuidar dos casos dos doentes. Que é o diagnóstico precoce, como você falou, e estar atento ao que a gente chama de sinais de alarme, que é quando a pessoa possa manifestar algum tipo de quadro que pode me dar uma indicação de que ela vai ter um quadro mais grave ou complicado. Não são todos os casos graves, que eu precise internar, tomar medida mais agressiva no tratamento. Mas, preciso ser capaz de identificar estes casos para tratá-los adequadamente.

JC- O pente-fino realizado a partir de setembro foi bem-sucedido naquelas cidades em que havia maior suscetibilidade? Clélia - Sim, mas é importante que nós não devemos interromper isso. Ainda a infestação existe, os criadouros são renovados. Então é importante a continuidade das ações.

JC- Em quais regiões do Estado a incidência de casos é mais preocupante este ano? Clélia- Agora em 2008 nós temos números de casos maiores em três municípios: Araraquara, Ribeirão Preto e Mogi Guaçu. São áreas onde as ações de combate ao vetor estão se intensificando esta semana. E também nas regiões de Americana e Bauru, onde os agentes da Sucen estarão retornando na próxima semana.

JC- Por que estas regiões estão apresentando números preocupantes? Há alguma razão especial? Clélia- É possível que você tenha lá uma infestação maior. E a população de lá estava suscetível. Quando você tem uma população que não teve a doença, na hora que você começa a ter alguns casos e transmissão, ela acaba aumentando porque várias não têm imunidade.

JC- Todas as campanhas de prevenção estão voltadas para os hábitos do cidadão comum, que deve ser transformado em vigilante contra a proliferação de focos... Clélia- Sem dúvida, é fundamental. Esta cultura do novo hábito é importante que seja adquirida pela população. É como escovar dente. Tem que ser todos os dias. Faço a comparação com as campanhas de vacinação. Aos poucos a população foi se conscientizando e aderindo. E hoje você nem precisa ficar conversando muito, todo mundo leva a criança para vacinar. Com a dengue é a mesma coisa. É um hábito que vem vindo e vamos ter que adquiri-lo e colocá-lo para frente. Ao longo do tempo é preciso que todos saibam quais as medidas básicas que cada um tem que fazer na sua casa, na sua rua.

JC- É uma cultura que terá que se tornar permanente? Clélia- Tem que ser um hábito constante. Naquele período que o mosquito pode proliferar menos, eu tenho que continuar insistindo, pois, quando chegar o verão, eu já fiz ações que impeçam e diminuam o progresso da doença. É uma coisa que é para sempre. Nós teremos que ter este hábito para sempre. Nunca mais eu, cidadão, vou poder deixar de fazer. Eu tenho esta impressão. É como ocorre nas campanhas de vacinação. É como aquela cultura de que é preciso visitar periodicamente o dentista.

JC – O Estado está pronto a dar esta assistência? Clélia- Temos feito este esforço, mas não é uma coisa simples. O número de unidades de saúde é imenso, o número de profissionais é imenso. Tenho uma rotatividade muito grande de pessoas na rede. E tem a questão de, em momentos de transmissão maior, o sistema não está preparado para receber um acúmulo de pessoas. Então preciso ter uma ação mais pontual de organização de serviço, adequada para aquele momento. Não tenho condições de montar uma estrutura permanente pensando em uma região específica. Isso é muito complexo, mas temos tentado fazer uma assistência ao município e uma ajuda.

JC- Esta operação pontual é muito dispendiosa? Clélia- Acaba isso sendo compartilhado entre Estado e município, mas é muito difícil você fazer previsão. Vai depender do momento.

JC- As prefeituras têm sido eficientes nesta parceria? Clélia – Eu acho que esta parceria vem se fortalecendo se compararmos os últimos anos.

JC- E qual o papel dos municípios? Há como se determinar? Clélia- As ações rotineiras de controle do vetor são municipais. Aí você tem que ter especial atenção para o caso dos suspeitos. A Sucen tem uma ação de monitoramento, supervisão, deslocamento de equipes caso necessário. Aumentar força-tarefa, agentes de campo em momentos específicos.

JC- Qual a eficácia da aplicação dos inseticidas, da nebulização, os chamados ‘fumacês’? Há uma grande polêmica, até sob a ótica ambiental... Clélia – O inseticida tem ação no mosquito adulto. Ele vai eliminar aquele mosquito que possa estar nas grandes áreas por onde passa o fumacê. Mas acaba não penetrando em diversos cantinhos da residência. Então, a ação não é de 100%. Posso ter locais onde ele não conseguiu penetrar. E é uma ação temporária. Ele está matando o mosquito adulto, mas se não houver o combate aos focos, as larvas que estão ali vão eclodir e vão nascer novos mosquitos.

JC- E haverá a necessidade de outros mutirões? Clélia- Vai depender da avaliação ao longo do ano. O comportamento de dengue costuma ser mais incisivo neste primeiro semestre. Vai depender da evolução dos casos e da identificação de alguns locais que possam demandar uma ação emergencial.