09 de julho de 2026
Bairros

Em Bauru vivem 83 famílias de índios

Por Ieda Rodrigues | Colaborou Luciana La Fortezza
| Tempo de leitura: 4 min

Ao invés da aldeia, a cidade. Influenciados pelo capitalismo, em busca de trabalho e estudo, ou por não conseguir sobreviver em suas tribos como seus antepassados, cada vez mais, índios mudam-se para centros urbanos. Em Bauru, são 83 famílias. E a maioria mora na periferia, em condições precárias, aponta levantamento feito pelo Conselho dos Direitos e Defesa dos Povos Indígenas Urbanos do Centro-Oeste Paulista.

Nas quatro aldeias da região, localizadas no município de Avaí, vivem aproximadamente 120 famílias, num total de cerca de 500 índios, segundo dados de Mário de Camilo, chefe do serviço de segurança patrimonial indígena e meio ambiente da Regional Bauru da Fundação Nacional do Índio (Funai). “O índio está morando mais na cidade que na aldeia, mas a gente nunca deixa de ser índio. Mas é discriminado. Muita gente diz que, como mora na cidade, não é mais índio, o que não é verdade”, defende Jupira Teena, presidente do Conselho dos Direitos e Defesa dos Povos Indígenas Urbanos.

Ela garante que, mesmo morando na cidade, a maioria conserva sua cultura. “Aqui em Bauru temos aula de dialeto todos os sábados para crianças e também adultos”, conta ela, explicando que o professor é índio e, na falta de espaço em escola, as aulas são dadas nos quintais das casas dos índios. “Temos muitos índios morando no Jaraguá, no Santa Edwirges, Redentor, Vila São Paulo, Jardim Ivone”, enumera.

Uma delas é Izabel Alcassa de Souza, 45 anos. Seus cabelos e traços ressaltam a origem indígena, da qual se afastou aos 18 anos para acompanhar os pais. “Eles saíram para trabalhar fora. Depois, não senti vontade de voltar para lá”, confessa. A suposta oportunidade de emprego fora da aldeia a manteve na vida urbana, embora more muito mal.

“Lá só tem serviço na roça. Trabalhei muito em roça, mas me acostumei fora de lá. Quem está aqui, não consegue voltar. Quem está lá, não deve sair”, diz. Sua irmã continua em Avaí, onde Izabel passou o último Natal. Ela conta que a mãe era 100% guarani. Já o pai, espanhol, morou por 30 anos na aldeia. Seu casal de filhos e de netos não negam a ascendência, mas não foram batizados com nomes indígenas. Convivem com ela na periferia da cidade.

A mudança da aldeia para a cidade, afirma Jupira, geralmente ocorre porque o índio, influenciado pela economia de mercado, quer melhorar de vida, quer ganhar dinheiro, quer consumir. Outro motivo comum são as divergências políticas internas das aldeias. “No Brasil inteiro, a estimativa é que 190 mil índios morem fora de tribos”, frisa.

Em aldeias indígenas do País todo, vivem cerca de 460 mil índios, distribuídos entre 225 comunidades, que perfazem cerca de 0,25% da população brasileira, segundo a Funai. De acordo com Mário Camilo, nas aldeias da região os índios plantam hortaliças e legumes, que são vendidos ao Ceasa, e culturas de subsistência, como feijão e arroz.

Apesar de muitos viverem em condições precárias nos centros urbanos, Jupira cita que também existem os que estudam, trabalham e têm vida digna. “Aqui de Bauru mesmo temos dois índios estudando medicina em Cuba. E a proposta é que eles voltem para as aldeias quando se formarem. E temos vários fazendo faculdade. O Iesb (Instituto de Ensino Superior de Bauru) firmou parceria com a gente e dá 75% de desconto na mensalidade”, completa.

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Da aldeia para a cidade

Índia da etnia terena, Jupira viveu na aldeia até os 10 anos de idade. Mudou-se para Brasília, onde iniciou os estudos e depois para Bauru. Há alguns anos, voltou para aldeia, onde ficou por apenas dois anos. Ela retornou para cidade após sua casa ter sido queimada, ocorrência que até hoje não foi esclarecida autoria e motivação.

“Comecei a fazer jornalismo, mas tive de parar por causa de uma pneumonia”, conta ela que já presidiu entidade representativa das mulheres indígenas.

Atualmente na presidência do Conselho dos Direitos e Defesa dos Povos Índigenas Urbanos do Centro-Oeste Paulista, ela está cadastrando as famílias indígenas que moram nas cidades da região. “Em Bauru, já terminei. Mas ainda vou começar em Avaí e Duartina”, relata. Para celebrar o 19 de abril, Dia do Índio, hoje as aldeias terena e guarani de Avaí vão apresentar danças típicas e exposição para venda de artesanatos.