07 de julho de 2026
Saúde

Toques e retoques

Consultoria: Daniela Hueb
| Tempo de leitura: 4 min

Por que exageramos na alimentação?

Prezado leitor,

Aposto que você já se perguntou e não encontrou uma resposta, ou pelo menos arriscou uma: por que como tanto? Pois é, por tratar de emagrecimento, recebo essa pergunta diariamente em minha prática clínica. A resposta é um pouco complexa e não envolve apenas um fator, mas uma coisa é certa: abusamos na alimentação geralmente nos finais de semana, estou certa? Vamos esclarecer isso melhor.

Motivos envolvidos

Vários fatores compreendem esta complexa resposta, que é o abuso do consumo de alimentos, e os mais triviais são:

1) Expectativa de cumprir tarefas não conseguidas durante a semana;

2) Expectativa de aproveitar o fim de semana para relaxar, ler, fazer exercício, curtir os filhos, namorar, ir ao cinema, passear, ir ao parque, cuidar da casa, arrumar os armários, ouvir música ou cuidar das plantas;

3) Convívio intenso com familiares, podendo gerar muitos sentimentos diferentes, desde os mais alegres até os mais desagradáveis;

4) Conflitos gerados pelo restrito contato familiar durante a semana. Estes, quando existem, acabam sendo resolvidos ou discutidos no final de semana. Ou, ainda pior, por não serem discutidos, acabam sendo engolidos;

5) Tempo dedicado ao isolamento com pensamentos de sentimentos desagradáveis;

6) Falta de tempo para si e muito tempo dedicado aos outros;

7) Eventos sociais que gostaria de evitar e, infelizmente, nossa vida social, às vezes, é monótona e nos exige desafios;

8) Convívio obrigatório com pessoas que lhe irrita. Para isso não tem jeito, pois nem sempre conseguimos conviver somente com as pessoas que gostamos. É difícil, mas deve-se aprender;

9) Dificuldade de encontrar roupas para vestir no final de semana. Assim, um momento que deveria ser de relaxamento se torna um momento de muito estresse, principalmente nas horas de sair para se divertir com amigos e familiares.

É possível nos encontrarmos em muitas situações das citadas nos finais de semana. Certamente, esses sentimentos de raiva, frustração, incompreensão e tristeza acabam sendo consolados com alimentos nada saudáveis.

Por que buscamos o consolo na comida?

Conhecer-se é fundamental. Pense bem nestes motivos. Se um ou mais deles lhe serviram como uma luva, tente resolvê-los. Se não conseguir, não golpeie sua saúde com comida, pois você só tem uma e depende dela para tudo. Só damos o devido valor à saúde quando ela está ameaçada.

Procura uma alternativa. Comece não comendo errado e nem sendo duro consigo mesmo, pois o final de semana serve para relaxar, e você merece este conforto. Durante a semana, reserve alguns momentos para fazer tarefas que costumam ficar para o sábado e domingo. Afinal, é uma maneira de não sobrecarregá-lo.

Por que a vontade de comer doce?

Você já se perguntou por que sentimos vontade de comer coisas doces mesmo sem fome? Ou o motivo pelo qual sentimos aquela moleza depois de uma refeição considerada “pesada”? Ou a explicação para as mulheres gostarem mais de doces aos homens? Ou, simplesmente, por que gostamos tanto de comer?

A resposta a todas estas perguntas provavelmente está num fator importante: a serotonina, um neurotransmissor que controla, dentre outras coisas, a sensação psicológica da fome, o humor e o sono. Supõe-se, portanto, que concentrações elevadas desta substância fariam você se sentir bem, saciado e dormir feito um bebê.

E a comida, o que tem a ver com isso? A alimentação influi no sistema nervoso através de mudanças na concentração de aminoácidos, principalmente o triptofano. Quando você consome alimentos ricos em carboidratos de alta carga glicêmica (doces e massas), induz a uma elevada resposta de insulina, o hormônio que põe a glicose e algumas substâncias do sangue para dentro das células. Desta forma, diminui-se a concentração de alguns aminoácidos no sangue, os quais competem com o triptofano para atravessar uma barreira existente entre o sangue e o cérebro. Sendo assim, maiores quantidades de triptofano estarão presentes no cérebro e este acaba gerando serotonina. Com ela em alta, você fica calmo, sonolento, alegre e saciado. Agora você entendeu por que é difícil ficar longe dos doces?

Mas, e a saúde?

É fato conhecido que comer demais nos leva a engordarnos, mas, infelizmente, para emagrecermos, não basta fechar a boca, tomar medicação ou operar o estômago. Ele não é resultado de nenhuma fórmula matemática que serve para todas as pessoas, sendo a mais conhecida esta: pouca alimentação + atividade física = emagrecimento. Se assim fosse, não existiria problema de obesidade. Emagrecer está além disso. É necessário, antes de tudo, se conhecer e entender que motivos lhe impedem de emagrecer, e ainda mais, querer muito. Para isso, uma boa psicoterapia pode-lhe ser útil.

O excesso de peso não pode ser encarado como um problema de estética, pois ele traz conseqüências sérias à sua saúde, como diabetes, doenças cardíacas, problemas ósseos e articulares e até depressão. Nesses casos, deve-se esperar da estética uma conseqüência, não um objetivo. A sua saúde em primeiro lugar. A medicina não emagrece ninguém, pois não faz milagres. Se tanto deseja este milagre, busque-o em seu interior, pois somente você é capaz de realizá-lo. Vá à luta e emagreça já!

Um grande abraço e até o próximo domingo.

Daniela Hueb

Médica, CRM-SP 96.027

e-mail:danielahueb@jcnet.com.br