11 de julho de 2026
Cultura

Sobre mundos: Nós que aqui estamos por vós esperamos

Por Padre Beto* | Especial para o JC
| Tempo de leitura: 4 min

“Papai, mamãe, me desculpem por ser um filho ingrato. Não há pior desgraça do que um filho morrer antes dos pais, isso foge à ordem natural das coisas. No meu silêncio, já refleti muito sobre o sentido e a finalidade desta guerra. Mas estar aí junto a vocês seria uma grande humilhação...”

Estas palavras do soldado Kato Matsuda, morto em 1945, representam não somente a visão do absurdo das batalhas, mas a essência da obra cinematográfica de Marcelo Masagão “Nós que Aqui Estamos por Vós Esperamos”. Com imagens de arquivos, extratos de documentários e de algumas obras clássicas do cinema, o filme faz uma retrospectiva do século 20, retratando sim personagens famosos, mas nos apresentando homens e mulheres comuns que, em seu cotidiano, também fizeram a história daquele século.

Na verdade, o que meditamos durante o filme são imagens “oníricas” de uma historiografia que pretende mostrar a ligação íntima do todo com as partes, ou seja, dos indivíduos com a estrutura social e desta com os indivíduos. “Nós que Aqui Estamos por Vós Esperamos” não afirma simplesmente que a morte iguala a todos, independentemente de seus feitos, no decorrer da vida, mas também que, justamente devido à morte, a vida deve ser significativa.

O filme é um apelo para a conscientização da importância das escolhas individuais para a história coletiva. Alguns se limitam à simples sobrevivência, outros, porém, vão além dando saltos qualitativos para a qualidade da vida. O difícil é escapar da dialética “os homens criam as ferramentas, as ferramentas recriam os homens” e assim fazer escolhas autênticas.

A vida do ser humano é definida a partir de escolhas. Através destas, entre poucas ou muitas alternativas, é construído o perfil de uma personalidade. Além de ser o momento que nos convida à reflexão, o fazer uma determinada escolha espelha nossa visão de mundo e aquilo que verdadeiramente somos. O que é escolhido está intimamente relacionado com o sujeito que escolhe.

Sem dúvida alguma, existem circunstâncias que independem de nossa própria vontade, afinal estamos todos mergulhados em um sistema social e econômico. Porém, até mesmo o fatal nos oferece uma diversidade de alternativas: as diferentes formas de enfrentá-lo. O capitão de um navio pode avistar em alto mar uma terrível tempestade que se aproxima. Se o capitão é experiente saberá que a tempestade é inevitável, mas mesmo assim ele poderá controlar a velocidade do navio, a rapidez com a qual o navio se confrontará com a tempestade.

O momento da escolha torna-se, muitas vezes, fundamental, não simplesmente pelos pensamentos e reflexões que devemos desenvolver ao fazermos uma opção, mas pelo fato da oportunidade da escolha ser efêmera, fugaz, transitória. Diante de muitas alternativas encontra-se o perigo de, no momento seguinte, nós já não termos mais o direito de escolha. A seriedade diante de uma alternativa não está no fato de podermos viver o que escolhemos, mas no fato de termos que viver o que não escolhemos ou não conseguimos escolher.

Muitas vezes, nos recusamos a fazer uma escolha acreditando que somos capazes de conservar a vida como ela se encontra. A vida, porém, é dinâmica e sujeita às mutações. Neste sentido, o mais importante diante das alternativas da vida não é o fazer a escolha certa, mas sim a energia, a seriedade, a vontade com que fazemos a escolha. Através da intensidade que realizamos as escolhas da vida anunciamos e consolidamos nossa personalidade, ganhamos respeito diante das outras pessoas e, muitas vezes, a escolha que aparentemente seria errada torna-se a mais correta.

Se fizermos uma escolha com seriedade, talvez não cheguemos a fazer grandes feitos ou talvez não agrademos a maioria das pessoas mas, com certeza, seremos nós mesmos. O objetivo fundamental do ser humano não deve ser a simples aceitação do grupo, mas sim a capacidade de ser autêntico. “A verdadeira grandeza não consiste em receber honras, mas em merecê-las” (Aristóteles).

Somente na autenticidade o ser humano descobre verdadeiramente o caminho de sua realização pessoal e talvez consiga modificar algum aspecto da estrutura sócio-cultural em que vive. A vida se desenvolve quando em nossas escolhas buscamos ser e fazer o que nos completa. Nesta decisão está em jogo ser ou não ser massa de manobra de um sistema dirigido por poucos. Muitas vezes, deixamos que o grupo decida por nós, deixamos de fazer nossas próprias escolhas por alienação diante do contexto social, diante do medo da reação de outras pessoas ou por receio da mudança em nossa vida. Mas somente assumindo verdadeiramente minhas escolhas encontrarei a razão de estar na existência e tornarei meu “estar aqui” algo extraordinário. Querer ser igual aos outros pode ser fácil no começo, mas se torna fatigante com o tempo; ser como sou pode me trazer dificuldades, mas sempre terei a certeza de que estou vivendo realmente.

* Para entrar em contato com o padre Beto, acesse o site www.padrebeto.com.br.