07 de julho de 2026
Geral

Objeto de morte é símbolo de fé

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 4 min

Poucos símbolos são tão difundidos ao redor do mundo (e ao longo da história) como a cruz. Para os povos da antigüidade, por exemplo, ela era sinônimo do da união dos opostos, explica o professor do departamento de Ciências Humanas da Universidade do Sagrado Coração (USC), Antônio Walter Ribeiro de Barros Júnior.

“Os povos antigos enxergavam na cruz o encontro entre o céu e a terra”, salienta. Com os romanos, por conta do suo massivo da crucificação como punição para os traidores do império, o objeto passou a ter um novo significado. “Passou a ser sinônimo de tortura e de força”, diz ele.

Foi o cristianismo que a cruz ganhou novo significado. “Ela deixou de ser símbolo de vergonha e passou a ser um sinal de alegria e esperança”, acredita o vigário-geral da Diocese de Bauru, padre Luís Antônio Carqueijo Sé.

Nas primeiras décadas após a morte de Jesus, embora já fosse adotada como sinal pelos cristãos, a cruz ainda não tinha uma presença predominante entre os fiéis. “Havia outros símbolos, como o peixe, por exemplo”, lembra o professor de comunicação da Universidade do Sagrado Coração (USC), Luís Henrique Marques.

De acordo com ele, foi a partir de Constantino, no século 4, que a cruz passou a ser o grande símbolo da cristandade. Segundo a lenda, quando estava no sexto ano de seu reinado, o imperador romano enfrentou um sério conflito contra os bárbaros.

Numa noite, às vésperas de uma batalha às margens do rio Danúbio, da qual dificilmente teria chances de se sair vitorioso, Cons-tantino olhou para o céu e teve uma visão: ele enxergou uma grande cruz, e acima delas as palavras em latim “IN HOC SIGNO VINCES” (“com este sinal vencerás”).

Constantino teria mandado, então, colocar uma grande cruz adiante de seu exército e também ordenou aos homens que acreditassem com todas as forças naquele sinal, pois os deuses lhes concederiam a vitória, que de fato ocorreu. Dias depois, em Roma, ele se converteu publicamente ao cristianismo e se batizou.

“Talvez ele tenha de fato assumido a nova fé, mas houve um tanto de conveniência naquele gesto, pois a religião já se encontrava bastante difundida pelo império, e seria perigoso para Roma continuar perseguindo ou ignorando os cristãos”, afirma Marques.

Fé embasada

Alguém poderia perguntar: de que vale saber como foi a morte de Jesus? Em termos de fé, nada, explicam os teólogos. “As evidências científicas são importantes no sentido de que nos ajudam a compreender melhor o conteúdo das escrituras. Isso não quer dizer, porém, que elas sejam condições necessárias para a fé”, explica o vigário-geral da Diocese de Bauru, padre Luís Antônio Carqueijo Sé.

“Para ter fé, é necessário apenas crer”, reforça. Na opinião de Gilson Souto Maior Júnior, pastor da igreja Batista do Jardim Estoril e professor da Faculdade Teológica Batista de Bauru (Fateo), o conhecimento a respeito de como foi a morte de Cristo ajuda o fiel a refletir sobre o sacrifício de Jesus no Calvário.

“Às vezes nos acostumamos com as cenas da vida de Jesus e pouco refletimos sobre o que aconteceu realmente, que a morte dele trouxe vida e que sua ressurreição aponta para a vitória de todo aquele que nele crê”, afirma.

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Pulsos ou mãos?

Quem lê as Escrituras ou observa alguma imagem de Cristo crucificado já deve ter reparado que é comum Jesus aparecer com os pregos enfiados nas mãos.

Durante muito tempo, a partir do último século, começou a circular a teoria de que, na verdade, os pregos não teriam sido colocados nas mãos, mas sim nos pulsos.

Dois fatores ajudaram a fortalecer essa teoria. Primeiro, foram os estudos feitos no Sudário de Turim (peça de pano que, segundo a tradição católica, teria sido usada para recobrir o cadáver de Jesus e, portanto, conteria impressões de sua face e de seu corpo) apontam que os ferimentos teriam ocorrido na altura dos pulsos.

Outro fator que ajudou a reforçar a idéia foram os estudos feitos nos anos 50 pelo norte-americano Pierre Barbet e expostos no livro “A paixão de Cristo segundo o cirurgião” (Editora Loyola).

Experimentos feitos pelo médico com braços de cadáveres amputados teriam demonstrado que a mão humana não seria capaz de sustentar o peso do corpo, quando presa à cruz.

Já para o autor de “A crucificação de Jesus”, o norte-americano Frederick T. Zugibe, a teoria de Barbet não pode ser considerada, pois leva em conta um corpo suspenso.

Zugibe afirma que, uma vez que estava com os pés presos à cruz, o corpo Jesus contaria com total sustentação, podendo permanecer durante muito tempo nessa posição. Se ele ficou menos de um dia preso ao madeiro, foi por conta do sofrimento físico e mental a que esteve submetido desde a madrugada.