A menina Isabella morre todos os dias na mídia, dezenas de vezes nas reconstituições do que teria sido o seu martírio. Seu rosto de sorriso angelical e os vídeos das suas participações fantasiadas nas festinhas da escola açulam a multidão. Telejornais tiveram a audiência aumentada em até 46%. A multidão chuta o portão da casa dos pais de Alexandre Nardoni e ameaçam depredá-la. Cartazes acusam a ele a e a (ma)drasta de “assassinos cruéis”. A fúria supera a fronteira da racionalidade. O sorveteiro aproveita para faturar. O promotor público cego de um olho, o delegado obeso, o perito engravatado e os advogados incipientes dão entrevistas, solícitos diante das câmeras encarapitadas até nos telhados das residências vizinhas. A realidade torna-se imagem, e as imagens tornam-se realidade; no espetáculo, ser é substituído por aparecer.
A “sociedade do espetáculo” (Guy Debord, 1967) vai muito além da presença dos meios de comunicação de massa. O espetáculo acontece porque a vida real é pobre e fragmentária, e os indivíduos são obrigados a contemplar e a consumir passivamente as imagens de tudo o que lhes falta na sua existência real, substituindo a sua vida concreta pelo culto à dos outros. Podem ser celebridades, políticos e mesmo tragédias. Quem não tem a sua contenta-se com a dos outros.
A tragédia grega continua atual porque é um fenômeno social, estético e psicológico. Ésquilo, Sófocles e Eurípedes escreveram tragédias há 2.500 anos, que continuam sendo encenadas. No teatro grego o dilema em que se encontra o personagem é o motor da ação trágica. É o que basta. Alexandre Nardoni está entre duas Ana Carolina. Uma odeia o amor que o pai nutre pela filha. O ciúme a devora em relação à primeira mulher do amado. “O que fazer?”. Agamenon se interroga: “Devo ordenar o sacrifício de Ifigênia para desbloquear os ventos e imediatamente partir para vingar a honra dos gregos? Ou devo poupar minha filha amada? Nesse caso não cobrirei minhas mãos com sangue de minha própria existência, de meu próprio sangue. Mas então a expedição à Tróia não ocorrerá, e o exército que chefio poderá me acusar de ter traído suas esperanças”. É o dilema ético do cumprimento do dever. Mas, a guerra é declarada por causa do amor roubado pelo agora inimigo mortal. Decidir é mais importante que uma vida. A tragédia apresenta o homem em situação de agir, diante de uma decisão que envolve tudo; ele vai escolher o que lhe parecer melhor. Ora, ao fazer essa opção ele irá de algum modo se autodestruir. Pois seu ato irá assumir um sentido completamente diferente do que imaginara e se voltará contra ele, como uma espécie de bumerangue. Esse homem que acreditava agir bem vai aparecer como um monstro ou um criminoso. É uma ilusão acreditar que o homem é dono de seus atos, diz a tragédia.
O homem do povo, sensato, se pergunta se é possível um pai atirar pela janela do alto de um edifício a própria filha, ser do seu ser, sangue do seu sangue. É arquetípico – imutável no tempo e no espaço – que o pai é senhor do destino do filho. “Padre, patrone” – dizem os sicilianos. O que choca em Édipo Rei, de Sófocles, não é o fato do pai mandar matar o filho. Até aí tudo bem. Abraão também ia matar o filho sem hesitação, por ordem do Senhor. O que choca na história é que Édipo, o que deveria morrer e foi salvo pelo acaso, praticou uma desonra terrível: mata seu pai e transa com a própria mãe. Quando mata seu pai, não sabe que é seu pai e está em situação de legítima defesa. Sua mãe: ele se casa com ela, dorme com ela e lhe faz filhos. Ele planta suas sementes no próprio solo de onde saiu, como diz o texto de Sófocles. Existe, portanto, o parricídio e o incesto, piores que o filicídio, substantivo desusado. Mas, Édipo não quis esse casamento. Foi empurrado pelo destino ou pelos deuses vingativos. Salvou Tebas. É o mais virtuoso e o mais monstruoso dos homens: não podendo mais suportar o olhar do outro, só lhe resta perfurar os olhos.
Alexandre Nardoni não é Édipo. Ana Carolina II nada tem de Medeia que matou os filhos para se vingar do marido infiel. A única coisa que os aproxima do personagem de Sófocles é o “erro de existir”. Por isso tanta infelicidade se abate sobre eles, inocentes ou culpados.
O surpreendente progresso técnico-científico representado pela mídia eletrônica nos torna “senhores e possuidores da natureza”, como queria Descartes. Todos os dias, a todo instante ela nos dá a sensação de que beiramos a catástrofe. A emoção que sentimos – o terror misturado com piedade – é purificada pela força do ritmo e da estética televisiva. Somos sacudidos pelas tragédias, mas vamos dormir felizes: purgados.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC