09 de julho de 2026
Geral

Trabalhos do grupo não visam religião

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 3 min

Embora tenha sido criado pensando em atender às necessidades do público evangélico, o trabalho dos PMs de Cristo pode ser descrito como ecumênico, na medida em que é voltado a adeptos de diferentes denominações religiosas.

É o caso do cabo Hilário Nunes da Silva, que participou de encontro promovido pela entidade na última semana, na sede do 4.º Batalhão da Polícia Militar do Interior (4.º BPMI). “Sou católico, mas Deus é um só. Ele está acima de tudo”, acredita ele.

Apesar de ainda não ser integrante do “PMs de Cristo”, o soldado evangélico Carlos Eduardo Campos de Vasconcelos, 35 anos, conta que costuma orar todos os dias, antes de sair de casa para ir ao serviço. “Peço para que Ele ilumine meu trabalho”, diz. “Nas minhas orações, peço também por aqueles que estão no crime, pois Jesus veio ao mundo para mudar a vida deles, também”, garante.

A Associação dos Policiais Militares Evangélicos do Estado de São Paulo é inspirada em uma entidade similar existente no Rio de Janeiro. Entre seus preceitos, consta um decálogo (espécie de “Dez Mandamentos”) que versa sobre a coragem a partir da ótica cristã.

Recentemente, a entidade também publicou um livro de autoria diversa intitulado “Com o sacrifício da própria vida” (128 páginas, Associação dos Policiais Militares Evangélicos do Estado de São Paulo), que visa mostrar ao público os principais preceitos da associação.

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Situações extremas

Para os membros da Associação dos Policiais Militares Evangélicos do Estado de São Paulo, uma formação moral sólida é essencial para que o trabalho dos PMs possa ser bem sucedido. “Eu próprio senti isso na pele, alguns anos atrás, quando ainda atuava nas ruas”, afirma o major Alexandre Marcondes Terra, 45 anos, que atualmente ocupa o cargo de assistente policial militar da Coordenadoria Estadual dos Conselhos Comunitários de Segurança (Consegs).

Em 1999, a viatura em que ele trabalhava foi acionada para socorrer uma vítima de estupro. “Pouco depois, fomos informados via rádio que o suspeito de ter praticado o crime havia tombado de carro em uma ribanceira, numa área distante da Capital”, recorda-se ele, que atualmente é vice-presidente do “PMs de Cristo”.

Ao chegarem no local, os policiais perceberam que o suposto estuprador estava bem. Deram voz de prisão e o levaram para a viatura. No banco do carro do suspeito havia marcas visíveis do crime cometido há pouco (o tecido parecia estar manchado de sêmen).

“Assim que o pusemos na viatura, ele começou a nos fazer ameaças. Disse para termos cuidado, pois dentro de um ano, no máximo, ele estaria de volta às ruas”, afirma o major. Quem, numa situação dessas, não sentiria o sangue subir à cabeça?

Provavelmente Terra, que comandava a guarnição, deve ter tido alguns instantes de revolta, mas conseguiu se conter. “Lembrei-me dos valores em que acredito - que só Deus tem o direito de tirar uma vida - e fiz com que o criminoso fosse conduzido até o Distrito Policial para ser autuado”, afirma ele.

“Nos momentos de decisões extremas”, explica, “o que pesa de verdade são os valores que a pessoa carrega com ela. Por mais que você treine um profissional, você não terá como impedir que o instinto de vingança o domine em uma hora de dificuldade. Como conter, por exemplo, um grupo de policiais que acabou de ver um colega de guarnição ser baleado em um tiroteio? Só com valores morais sólidos isso seria possível”, afirma.