Enviado especial Acra, Gana - Ao chegar para uma visita oficial de três dias a Gana, no oeste africano, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva usou ontem a estratégia de defender os biocombustíveis atacando países ricos, sobretudo os EUA. “Na política de biocombustíveis, só tem um equívoco, que é a decisão americana de produzir álcool do milho’’, afirmou Lula, ao lado de John Kufuor, presidente ganense.
“Não aceitamos que outra vez os países mais pobres paguem a conta. Dizer que os biocombustíveis causaram o aumento do preço do alimento é perguntar: onde se produz biodiesel?’’, questionou, insinuando uma possível razão política dos países ricos no ataque.
O mote de que a melhor defesa é o ataque deve se repetir hoje e amanhãs, quando Lula participará da reunião da Unctad, a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento.
Como raras vezes se viu numa viagem sua, Lula estará na defensiva, sendo obrigado a justificar sua opção pelos biocombustíveis e a rebater a crítica de que eles ajudam a causar a inflação global de alimentos.
Ontem, ele recebeu o apoio de Kufuor, para quem os africanos “olham para o Brasil em busca de um exemplo na produção de alimentos e biocombustíveis’’. Ainda ontem, Lula encontrou outro culpado pela inflação, o petróleo. “É importante que as pessoas tenham a responsabilidade de dizer que o preço dos alimentos se deve muito mais ao custo do frete causado pelo preço do petróleo do que pelo biodiesel.’’
Para ele, é “muito estranho’’ que não se critique o salto no preço do barril do petróleo, que na sexta-feira fechou cotado a US$ 113,92 -alta de 7,92% em um mês. Sobrou também para a União Européia, que, segundo Lula novamente insinuou, estaria sendo incoerente nas críticas. “A própria União Européia já tomou a decisão de até 2020 introduzir 10% de biocombustíveis na gasolina.’’
Ele lembrou que quase todos os países assinaram o Protocolo de Kyoto, para acabar com a dependência dos combustíveis fósseis.
O presidente brasileiro convocou os países pobres a se armarem para uma “guerra comercial’’ contra o mundo rico, tanto na discussão sobre a Rodada Doha como no debate sobre a produção alimentar. “Os países africanos, asiáticos, latino-americanos terão de enfrentar uma verdadeira guerra comercial sobre a questão da produção agrícola, em dois níveis: na OMC e no aumento da produção de alimentos.’’
Mais tarde, aos jornalistas, Lula expandiu suas críticas aos EUA, dizendo que “não é recomendável que produzamos os biocombustíveis de produtos que são alimentos da população’’, caso do milho. “Eu gostaria que os Estados Unidos comprassem do Brasil, mas eles querem produzir do [milho], então problema deles’’.
Lula disse estar feliz de “enfrentar o debate’’ e afirmou que chamou uma conferência internacional sobre biocombustíveis para o Brasil em novembro, com a presença de chefes de Estado, cientistas e ONGs.
Ele inaugura hoje em Gana um escritório da Embrapa (Empresa Brasileiro de Pesquisa Agropecuária), que fará pesquisas no continente. Lula disse hoje que considera “encerrado’’ o episódio que envolveu o general Augusto Heleno, comandante militar da Amazônia, que fez críticas à política indigenista do governo.