11 de julho de 2026
Economia & Negócios

População desconhece taxas de juros

Gabriel Ottoboni
| Tempo de leitura: 4 min

Um estudo sobre o endividamento do consumidor de baixa renda revela um dado preocupante. Entre mais de 3 mil pessoas entrevistadas, 81,7% desconhecem as taxas de juros embutidas nas operações de crédito. O levantamento, divulgado pelo Instituto de Pesquisa Fractal sobre o Painel Financeiro da Indústria em 2007, ouviu 3.264 pessoas em sete Capitais brasileiras e duas cidades paulistas (Campinas e Ribeirão Preto), com média salarial acima de R$ 250,00 e idade a partir dos 20 anos.

Em contrapartida, dados da mesma pesquisa mostram que 85,2% dos entrevistados têm como prioridade de pagamento - atrás apenas de contas de luz e água - as parcelas de empréstimos obtidos em financeiras ou bancos. O objetivo da pesquisa é entender como a população de baixa renda tem sua estrutura de ganho e gasto, assim como o crédito “entra” na vida dessa faixa da sociedade.

Os números contrastam com norma estabelecida pelo Banco Central que entrou em vigor no mês passado, que prevê que bancos e instituições financeiras informem, antes de qualquer contratação de operação de crédito ou arrendamento mercantil (empréstimo pessoal, financiamento de veículo ou outro produto e leasing) qual é o Custo Efetivo Total (CET) embutido em taxas e impostos. Conforme divulgado pelo Jornal da Cidade, a mudança visa orientar o cliente em relação a essa porcentagem incluída nos pagamentos a longo prazo.

Segundo Celso Grisi, diretor-presidente do Instituto Fractal e professor da Faculdade de Economia e Administração (FEA) da Universidade de São Paulo (USP), o resultado da pesquisa é, de certa forma, surpreendente. Isso porque presume-se que a outra parcela dos entrevistados saiba calcular juros. “Para saber juros, há a necessidade de calcular juros compostos. Ou a pessoa tem que saber muito do assunto, ou ter uma calculadora na mão e saber usá-la”, explica.

Acúmulo de bens

Sobre o desconhecimento da maioria dos entrevistados em relação às taxas de juros, o professor explica que a situação é simples: o crédito faz parte do modo de vida da população mais carente e serve para o acúmulo de bens, sendo um processo natural de enriquecimento.

Grisi ressalta que a necessidade de empréstimo dessa parcela se deve à dificuldade de lidar com o fluxo de caixa, sendo que a única fonte confiável de crédito são as financeiras. “A pessoa não vai atrasar a parcela, pois se isso acontecer, perde a condição de recorrer em um momento de extrema necessidade ao único estabelecimento que pode dar abrigo financeiro”.

A taxa de juros cobrada pelas financiadoras é alta em razão da condição econômica do tomador de crédito. O negócio é visto como um risco para as empresas. “E como o risco é alto, aumenta-se o spread como forma de compensar futuros prejuízos”, argumenta.

Para Grisi, aquisição de veículos e produtos também ocorre sob a forma de operação de crédito. Como o tempo gasto no trânsito é muito alto, a parcela paga para um veículo é praticamente igual aos valores computados no final do mês com o uso do passe. Com menos tempo nas ruas e avenidas, o comprador ganha mais tempo para aumentar a renda, como um segundo emprego. O mesmo caso aplica-se ao comprar uma geladeira. “Quem adquiriu esse produto vai ter condição de guardar comida e salvar várias refeições durante a semana, baixando seu custo de vida”. Segundo suas pesquisas, cerca de 32% da renda dessa faixa são gastos com alimentação.

Saída

Grisi aponta uma saída para as altas taxas de juros cobradas pelas financiadoras. Segundo ele, o governo deveria promover uma política de equalização das taxas, para que o agente financeiro pudesse cobrar mais barato, “acelerando o processo de acumulação de capitais dessas pessoas (de baixa renda)”.

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Prioridades

Em relação às prioridades de pagamento, dados do estudo elaborado pelo Instituto de Pesquisa Fractal mostram que a conta de luz (100%), conta de água (89,3%) e parcela de empréstimo obtidos em financeiras (85,2%) encabeçam a lista dos primeiros itens que serão pagos. Os itens estão à frente do empréstimo bancário, prestação de aluguel e até aluguel, prioridade para apenas 16,8% dos entrevistados. Especialista em orçamento doméstico, Cléverson Antônio Moreira afirma que os itens que aparecem no topo da lista são prioridades para a população. “Isso é necessidade, diferentemente de um desejo ou algo supérfluo”. Sobre os juros, ele afirma que a população não está acostumada a trabalhar com a idéia de fluxo de caixa.