O debate sobre os biocombustíveis (álcool e biodiesel) levantou um problema existente há séculos e que se agrava com o aumento da população e com o êxodo rural. É o problema da fome em grande escala. O mundo tem terras e recursos para produzir alimentos para não deixar ninguém passar fome. No entanto, segundo o que vem sendo divulgado, existem 850 milhões de famintos e desnutridos, aos quais se juntam mais 4 milhões por ano. Não são os miseráveis, os mendigos, são pessoas que poderiam trabalhar e produzir se lhes fossem dados os meios.
No Brasil, se em vez da ‘indústria da seca’, que alimenta os políticos, todo o dinheiro jogado fora pelo ex-DNOS tivesse se transformado em obras de perfuração de poços, de canalização e de irrigação, como Israel conseguiu transformar o deserto em terra produtiva, o sertão nordestino, de terras férteis, seria uma nova Canaã. No Haiti, na África, na Indonésia e outras regiões assoladas pela miséria, se a ajuda internacional, em vez de armas e munições, que alimentam as guerras fratricidas, fosse aplicada em projetos agrícolas, para usar tratores e colheitadeiras, em lugar de tanques de guerra, seriam fornecedores de alimentos e não pedintes. Mas tudo isso seria continuar o sonho de Thomas More, de transformar o mundo numa utopia.
Essas considerações vêm a propósito de duas matérias publicadas nos últimos dias. A primeira vem de crítica do relator da ONU, para Direito à Alimentação, feita à produção dos biocombustíveis, de que o presidente Lula é um grande defensor. Em função desse relatório a ONU pediu mudanças urgentes na agricultura mundial para reduzir os perigos causados pela escassez e aumento dos preços dos alimentos. O medo é que a produção de milho e soja seja desviada para a fabricação de biocombustíveis, deixando faltar para a alimentação, tanto humana como de animais produtores de carne. Isso porque os preços seriam mais atrativos. Essa tese vale também para a cana, que usurparia as terras utilizadas para a produção de alimentos. Até o Papa vem alertando para esse risco, que para os seus defensores, não tem fundamento.
A segunda matéria são as invasões dos sem-terra, que elegeram abril para intensificar as suas ações. Uma delas aqui ao lado, em Agudos, onde está o manancial de águas que abastece a fábrica de cerveja. Não é lugar próprio para assentamento, porque as terras são impróprias para a agricultura, principalmente de cereais. É uma invasão, portanto, só para dar divulgação ao movimento. O que eles querem, na verdade, são as cestas básicas fornecidas pelo governo. Não foi à toa que vieram acampar em frente ao depósito da Conab, em Bauru.
A propósito, o professor de sociologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Zander Navarro, ex-aliado de movimentos agrários, em entrevista à Folha, fez críticas contundentes ao MST, dizendo que ele “perdeu a sua razão de existência e sua disparatada agenda é o próprio reflexo desse descaminho. O MST não é mais do que uma organização do sistema político, integrada por algumas centenas de militantes profissionais, que não sabem fazer mais nada. Se mantido apático, some de cena política e, assim, como poderá obter os recursos públicos que sustentam a organização? A tudo isso o Governo Federal assiste passivamente, mantendo esta caríssima brincadeira chamara reforma agrária.”
Foi de rir, ver uma militante, em entrevista de TV, dizer que era preciso dar terra para eles, porque o mundo está sofrendo uma grande crise de alimentos. Quem conhece algum assentamento que deu certo? Mas, certo de verdade, transformado em sítios produtivos de arroz, feijão, milho, mandioca, hortaliças, abóbora etc., com benfeitorias e criação de porcos, galinhas e vacas leiteiras. Sua produção têm sido camisetas com símbolo do MST e a sua alimentação são as cestas básicas, com produtos produzidos pelo agronegócio e empacotados industrialmente.
O autor, Pedro Grava Zanotelli, é consultor e ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru