08 de julho de 2026
Geral

PCC dita leis do tráfico em Bauru

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 3 min

Em Bauru, no submundo do tráfico de drogas, quem dá as cartas é o Primeiro Comando da Capital (PCC). Uma estrutura que alguns denominam como “Estado paralelo” - mas que, pelo seu modo de organização, lembra mais um grande conglomerado empresarial - vem se alastrando rapidamente por toda a cidade.

A facção surgida no início dos anos 90 no Anexo da Casa de Custódia de Taubaté (Vale do Paraíba), supostamente para defender os direitos dos indivíduos que se encontram encarcerados, controla hoje, segundo apurou o Jornal da Cidade, boa parte dos postos de venda de drogas de Bauru.

Atualmente, de acordo com pessoas ouvidas pela reportagem que mantinham relação direta com o tráfico, o PCC seria responsável até mesmo por um cadastro dos pontos de venda de droga existentes na cidade, como forma de evitar a “concorrência predatória” entre os traficantes.

Com base nisso, a organização tomaria o cuidado de distribuir as “bocas” de acordo com a capacidade de consumo existente em cada região do Município. E somente pessoas autorizadas pela facção teriam condições de montar um ponto de venda de entorpecentes.

Nessa estrutura complexa, a lei que impera é uma só: a dos “irmãos”(forma como costumam ser denominados os integrantes do PCC). Atuando em diferentes regiões da cidade, eles ocupam o topo da hierarquia do tráfico e determinam quem vive, quem apanha e quem morre.

Abaixo deles vêm os “disciplinas”, espécie de encarregados da empresa do tráfico (ou de intermediários entre o PCC e os “peixes miúdos” do mundo do crime). “Quando alguém quer abrir uma ‘boca’”, explica uma rapaz de 29 anos que conviveu de perto com o comércio das drogas durante cerca de oito meses, “ela tem de se dirigir ao ‘disciplina’ e pedir permissão. Se ele autorizar, o negócio pode funcionar, do contrário, a pessoa corre o risco de ser morta”, garante.

Os disciplinas também têm a tarefa de manter a “lei e a ordem” (do tráfico, obviamente) nos bairros em que atuam. “Se ‘neguinho’ começa a praticar roubos numa vila (contra pontos controlados pela facção), o ‘disciplina’ vai lá e chama ele para aplicar uma pena. Dependendo do ‘delito’, o cara pode ser espancado ou até assassinado”, garante outra pessoa ouvida pela reportagem, um homem de 28 anos que foi viciado em crack durante 13 anos, aproximadamente.

Na base da hierarquia do tráfico estariam os vapores, “funcionários” responsáveis por executar diferentes tarefas necessárias ao funcionamento da “empresa”. “Tem uns que embalam, outros produzem (no caso do crack), outros separam e embalam e outros que distribuem”, explica o rapaz. “Essa estrutura pode ser comparada à de uma empresa”, lembra o subcomandante do 4.º Batalhão da Polícia Militar do Interior (4.º BPMI), major Nelson Garcia Filho.

Embora reconheçam que o tráfico de drogas se encontra bastante organizado na cidade, as autoridades (tanto civis quanto militares) evitam admitir que o PCC esteja por trás de toda essa estrutura.

“É evidente que o comércio de drogas não é feito por uma única pessoa. Que existe uma organização, isso é bastante claro para nós. Por outro lado, não temos como afirmar que os indivíduos envolvidos com o tráfico pertençam a essa ou àquela organização. Pelo que podemos perceber, a coisa parece estar bastante fragmentada, com diferentes grupos atuando de maneira independente”, diz a titular da Delegacia de Investigações Sobre Entorpecentes (Dise) de Bauru, Rejane Borro Ortiz Tiritan.

Nas matérias a seguir, o leitor terá condições de acompanhar relatos de pessoas que, por conta da relação que mantinham com o tráfico, acabaram se envolvendo em situações de violência, seja na condição coadjuvantes ou na de protagonistas. Por razões de segurança, todas terão sua identidade preservada, para que não venham a sofrer retaliações por terem colaborado com a reportagem.