Regina é uma aposentada que vive sozinha em um apartamento no bairro carioca de Copacabana. Sua vida não seria nada extraordinária se essa mulher da terceira idade não se dedicasse a uma atividade no mínimo exótica: participar de um serviço de informações da polícia que reúne aposentados. Em uma noite sem “trabalho”, essa eficiente espiã policial presencia, por acaso, o que ela interpreta ser um assassinato. A história se complica quando Regina descobre que o autor do crime é um juiz aposentado e a vítima sua esposa.
A partir daí, a espiã aproxima-se do juiz descobrindo não somente as armadilhas do sentimento, como também das aparências. O belo e intrigante filme do diretor Marcos Bernstein, “O Outro Lado da Rua”, nos leva à reflexão sobre a verdade, como esta pode ser construída de forma superficial e a necessidade de confrontar sempre as afirmações que divulgamos com os fatos que presenciamos. Afinal, podemos sempre estar iludidos por “verdades” que, apesar de lógicas, não passam de construções teóricas.
Seja de forma inconsciente ou não, sentimos a necessidade de ter certo domínio sobre a realidade, ou seja, necessitamos ter uma verdade sobre os fatos, situações e sobre a nossa própria vida. Sem dúvida alguma, a verdade deve possuir uma relação direta com a realidade. Afinal, ela pretende ser a expressão humana da realidade vivida por todos nós. À medida que possuo uma verdade, tenho a “segurança” de conhecer (pelo menos por um determinado tempo) aspectos de minha vida.
Nessa verdade, encontramos sempre a diferença entre dois níveis em constante interação: a afirmação e o fato. Possuir uma verdade significa afirmar algo sobre um determinado fato. Esta afirmação é carregada de conteúdo, ou seja, através da verdade (afirmação) caracterizamos o fato, damos um determinado valor a ele. Por ser uma afirmação humana, a verdade está também ligada à comunicação. Assim, a verdade humana tenta dar conteúdo a um fato ou circunstância através de uma afirmação que se expressa em uma frase.
Nenhuma verdade é aceita se não existe uma relação de coerência entre estas três dimensões: afirmação, frase e fato. Uma afirmação torna-se verdade quando uma frase pode exprimi-la, uma frase por sua vez torna-se verdadeira quando um fato ou uma circunstância pode atestá-la. Portanto, o exame da frase e da afirmação está na aproximação do fato. É justamente na circunstância que se comprova a veracidade de uma afirmação e de uma frase. Para se provar que tal afirmação é verdadeira é necessário encontrar uma correspondência entre o fato descrito, a circunstância expressa em uma frase e o fato ocorrido, a circunstância vivenciada.
Assim, o grande desafio em relação à verdade está na confrontação de sua afirmação com o fato. Este desafio exige que tenhamos a abertura necessária para analisar a realidade através de diversas perspectivas na procura de aprimorar nosso conhecimento sobre as situações. Viver é estar em um constante conhecimento da realidade, ou seja, em um constante questionamento sobre nossas verdades, comprovando se estas se encaixam realmente com os fatos vividos. Para isso é necessária a humildade de admitir que sempre estamos aprendendo.
Como afirmou, certa vez, Eça de Queiroz, “para ensinar há uma formalidade a cumprir. Saber”. Um inimigo do saber e, por conseqüência, da verdade, é o dogmatismo. A verdade sobre os fatos e sobre a vida deve estar sempre acompanhada de seu questionamento, de uma constante avaliação. A verdadeira sabedoria não consiste somente em atingir a verdade, mas principalmente em ter a consciência de que a verdade pode não corresponder exatamente com as circunstâncias. “Mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente aprende” (João Guimarães Rosa).
Atrás do dogmatismo, muitas vezes, está o medo de que a verdade seja outra. A afirmação dogmática sobre a realidade significa uma forma de fuga da mesma. Muitas vezes criamos uma verdade que nos agrada e não queremos conhecer ou reconhecer a discrepância que existe entre o que acreditamos e o fato, a circunstância que contesta ou até mesmo nega esta verdade. Nos fechamos à confrontação dos fatos com nossa afirmação porque no fundo sabemos que aquela irá nos fazer sofrer. Porém, “conhecer a verdade não é o mesmo que amá-la e amar a verdade não equivale a deleitar-se com ela” (Confúcio).
De qualquer forma, a busca da verdade sobre os fatos e a vida constitui no verdadeiro viver humano. Justamente passamos pela existência para nos aproximarmos da verdade e deixarmos para as próximas gerações um universo mais lúcido.