São Paulo - Os peritos levaram ontem sete horas para fotografar, desenhar e cronometrar as ações que, na noite da morte de Isabella, teriam ocorrido nos 13 minutos entre a chegada da família Nardoni ao edifício Residencial London e o registro de chamada ao resgate. Apesar de intimados, Alexandre Alves Nardoni, 29 anos, e Anna Carolina Trotta Jatobá, 24 anos, não participaram da simulação. Também não houve presença dos advogados de defesa.
A equipe de quatro peritos, dois médicos legistas, dois desenhistas, um fotógrafo e um cinegrafista foi acompanhada pelo promotor Francisco Cembranelli e os delegados responsáveis pelo inquérito.
Na primeira hora e meia, foram cronometrados os passos da família da garagem até o apartamento. Depois, a rede de proteção do quarto da menina, que ainda estava intacta, foi retirada e colocada no quarto dos irmãos, de onde ela foi jogada. A mudança levou meia hora. Em seguida, a tela foi cortada com tesoura.
Uma boneca articulada com altura e peso similar ao da menina, cabelos negros compridos, calça branca e blusa azul foi segurada do lado de fora do apartamento 62, sacudida e solta duas vezes. Da primeira vez, o policial que representou o pai da criança soltou primeiro o braço esquerdo. Na segunda, o direito. A boneca ficou pendurada por cordas e peritos marcaram com fita os pontos da parede onde o corpo teria esbarrado.
Vizinhos
A boneca foi levada para a entrada do prédio e colocada no jardim, na posição que os vizinhos relataram ter visto Isabella. Morador do primeiro andar, Antonio Lucio Teixeira, 61 anos, foi o que deu mais detalhes. “Vira pra cá. Põe a mãozinha para cima e o rostinho colado na grama. Ai, que nervoso”, disse.
Depois, comentou a chegada do pai da menina. “Eu estava no telefone, com a polícia e ele disse que arrombaram o apartamento, rasgaram a tela de proteção e jogaram a filha dele. Eu falei pra polícia, vocês estão ouvindo? Vem logo que vão começar a jogar gente de lá de cima.”
Ainda segundo Teixeira, Nardoni pedia ao porteiro que subisse para procurar o ladrão. “Mas eu falei que não precisava porque a pessoa ia ter de passar por ali ou pela garagem e eu ficaria de olho.” O porteiro, Valdomiro da Silva Veloso, 28 anos, apenas confirmou.
Os peritos ouviram ainda o morador do terceiro andar e dois vizinhos do prédio ao lado. Ao contrário do que foi dito, não foram feitos testes de som para ver se gritos vindos do apartamento poderiam ser ouvidos de outros locais.
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Reconstituição atrai poucos curiosos
São Paulo - A ausência do casal na reconstituição da morte da menina Isabella afastou os curiosos da rua Santa Leocádia onde fica o prédio em que o crime ocorreu. Na esquina com a rua Ataliba Leonel, onde a Polícia Civil montou um bloqueio, apenas três cartazes pediam justiça na tarde de ontem. Os gritos dos manifestantes só ocorriam quando as câmeras de TV se aproximavam.
A estudante Renata Nogueira, 16 anos, que estudou no mesmo colégio de Ana Carolina de Oliveira (mãe de Isabella), chegou às 8h da manhã com um cartaz e enfrentou, de preto o sol, até o meio-dia. “É importante pedir justiça, fazer essa homenagem. Não estou com calor, o bom é que o sol até dá uma queimadinha”, disse.
Além dela, cerca de 40 pessoas se concentravam no local. Ao menos 20 eram funcionários do empresário Renato Tadeu Geraldes, 55 anos, fundador da organização católica Exército de Santo Expedito. “Viemos trazer uma mensagem de paz para as pessoas que vieram pedir justiça”, afirmou. Um dos funcionários dele era um fotógrafo que documentava todas as vezes que Geraldes falava com a imprensa. A quem passava pela avenida, o exército distribuía a revista da organização, produzida pela gráfica do empresário.
Viagem longa
De Ponte Nova (MG), há cerca de 750 quilômetros de São Paulo, veio o publicitário André Luiz dos Santos, 47 anos, que passou toda a manhã amarrado a uma cruz de 25 quilos e com uma mordaça. Ele carregava um cartaz que dizia: “Fui assassinada pelo amor do meu pai e pelo meu pai, Izabella”, com “z”, apesar de que o nome da menina se escreve com “s”. “Se continuarem matando nossas crianças, vamos virar um País de velhos, como a Itália e a França”, disse.
O sorveteiro João Fernando neves, 60 anos, ficou decepcionado com o pequeno movimento na rua Santa Leocádia. “Vim para ver e para vender, mas o movimento está muito fraco”, afirmou. Antes do meio-dia, ele foi embora para outro local procurando maior movimento.