11 de julho de 2026
Política

Ex-capitão põe dúvida sobre corpo de Petit; família desconfia

Por Gisele Hillário | Da Redação
| Tempo de leitura: 4 min

O ex-capitão do Exército e atual prefeito de Curionópolis (PA), Sebastião Rodrigues de Moura, mais conhecido por Curió, homem que se transformou no mais importante arquivo vivo da Guerrilha do Araguaia (sul e sudeste do Pará, norte do Tocantins e sul do Maranhão), disse ontem em entrevista ao Jornal do Brasil que não há desaparecidos e que o esqueleto desenterrado do Cemitério de Xambioá (TO) e supostamente identificado em 1996 por peritos da Universidades de Campinas (Unicamp), em solenidade patrocinada pelo PC do B e depois sepultado em Bauru, ao contrário de todos os registros, não pertence à professora Maria Lúcia Petit da Silva.

A Secretaria de Comunicação do PC do B vê com desconfiança as declarações de Sebastião Curió, sob argumento de que o ex-capitão já deu informações equivocadas sobre a guerrilha.

Na entrevista ao Jornal do Brasil, Sebastião pergunta onde está o DNA de Maria Lúcia Petit, antes de afirmar que sabe onde o corpo da verdadeira guerrilheira está sepultado. Segundo ele, desenterraram a pessoa errada. Maria Lúcia foi morta em 1972. Depois de localizado, o corpo foi encaminhado para a Unicamp e identificado pelo legista Fortunato Badan Palhares, por antropologia e através de informações de ex-guerrilheiros que com ela conviveram no Araguaia. Até agora, segundo o PC do B e a Secretaria Especial de Direitos Humanos, Maria Lúcia era a única militante do partido que desapareceu no Araguaia entre 1972 e 1975 identificada. Mas Sebastião Curió garante: “é um equívoco”.

Ao jornal, o ex-capitão diz ter o registro de nomes, circunstâncias de morte e destino de 59 guerrilheiros. Os relatórios secretos que as Forças Armadas dizem terem sido destruídos foram guardados por Curió, que entregou a farta documentação a jornalista que deve lançar em agosto um livro sobre a guerrilha, amparado em suas revelações.

Durante a entrevista, Curió evita entrar em detalhes, mas diz ter ordenado a retirada dos corpos das sepulturas originais e mandado enterrar em locais diferentes, cujas informações estão registradas em relatórios sigilosos e mantidos em segredo “fechado” entre ele, poucos militares e guias de sua estrita confiança.

Curió diz que só ele pode revelar, mas se silencia sempre que é perguntado sobre os locais já apontados por guias.

Os últimos guerrilheiros capturados vivos, segundo Curió, foram a estudante de enfermagem da PUC paulista, Luiza Augusta Garlippe, a Tuca, e a geóloga Dinalva Oliveira Teixeira, a Dina, que ele mesmo diz ter apanhado durante uma emboscada às 12h45 do dia 24 de julho de 1974 nas margens do rio Sororó, a 40 quilômetros de Marabá, no caminho para Eldorado dos Carajás. As duas estavam juntas e usavam revólveres. Curió estava acompanhado de outro militar. Ele afirma que as duas foram mortas, mas não revela quem as executou.

Desconfiança

A Secretaria de Comunicação do PC do B vê com desconfiança as declarações de Sebastião Curió, sob argumento de que o ex-capitão Sebastião Rodrigues de Moura, o Curió, já deu informações equivocadas sobre a guerrilha. Para o partido, é bem provável que Sebastião Curió tenha objetivos bem definidos ao dar tais declarações neste momento.

Um deles seria tumultuar a apuração do caso Araguaia, em andamento. Outro objetivo seria o marketing para a divulgação do livro que pretende lançar ainda neste ano sobre o tema.

Por conta disso, o PC do B vê com muita desconfiança a fala de Curió, ressalva suas declarações e não pretende adotar nenhuma postura neste momento. Antes de qualquer decisão, a diretoria do partido vai se reunir para avaliar as declarações de Sebastião Curió.

A vereadora Maria José Majô Jandreice (PC do B) também é bastante cautelosa ao falar sobre o assunto. Ela vê uma possível jogada de marketing e questiona: “Se ele tem as informações, por que não diz logo de uma vez? E por que já em 96, quando a Maria Lúcia foi sepultada, já não disse que havia um equívoco? Por que só agora?”.

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Quem era Maria Lúcia Petit

Maria Lúcia Petit da Silva nasceu em Agudos, em 1950. Foi para São Paulo ainda adolescente, onde concluiu o curso normal no Instituto de Educação Fernão Dias, em Pinheiros. E foi como normalista, em 1968, que Maria Lúcia começou a militar no movimento estudantil.

No início dos anos 70, já como militante do PC do B, Maria Lúcia e os irmãos Jaime e Lúcio, partiram para a região de Caianos, no Araguaia. Em 72, durante uma operação do Exército para reprimir a guerrilha, Maria Lúcia foi morta.

Segundo depoimentos de sobreviventes - disponíveis em www.desaparecidospoliticos.org.br -, no dia 16 de junho de l972, ao se aproximar da casa de um camponês, Maria Lúcia foi fuzilada por tropas do Exército, sob o comando do general Antônio Bandeira, da 3ª Brigada de Infantaria.

Os restos mortais de Maria Lúcia foram os únicos reconhecidos por laudo médico emitido pela Universidade de Campinas (Unicamp) e estão enterrados no Cemitério Jardim do Ypê, em Bauru. Os corpos de Jaime e Lúcio ainda estão desaparecidos.