09 de julho de 2026
Geral

Morador de rua tem de 25 a 44 anos

Luciana La Fortezza
| Tempo de leitura: 3 min

O morador de rua em Bauru não concluiu o ensino fundamental, tem entre 25 e 44 anos e é do sexo masculino. O perfil foi definido em pesquisa encomendada pelo Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS), realizada em outubro do ano passado. Na ocasião, 71 cidades brasileiras com população superior a 300 mil habitantes passaram pelo raio-x, conforme o JC divulgou na edição de ontem.

Na época foram identificadas 152 pessoas que, eventualmente, chamavam de teto alguma marquise - quem sabe, menos exposta que eles próprios. “Se não beber muito, não dá para suportar a rua. Sem beber corre o risco de cometer alguma besteira, como roubar ou matar”, conta Benedito, cujo sobrenome foi omitido a pedido dele. O ex-motorista relata que passou a perambular sem destino depois de separar-se da esposa.

A ruptura de vínculos familiares também levou Luís Fiocco à mesma situação. “Fiquei viúvo, me roubaram e não tinha nem como pagar pensão”, conta aos 62 anos. Ambos fazem tratamento no Centro de Atenção Psicossocial (Caps) na tentativa livrar-se do alcoolismo, motivo que levou 8,9% da população de rua a viver sem eira nem beira. Dos 152 consultados, 16,4% pediam dinheiro nas esquinas.

Benedito, que cursou até a 4ª séria do ensino fundamental, fazia isso para beber. Atualmente, assim como Fiocco, é atendido na Casa de Referência à População Adulta de Rua. Para ambos, qualquer atenção e conforto é melhor que a insensibilidade do concreto. Eles garantem que só pensa diferente quem é muito dependente de droga.

Apoio

A casa funciona no mesmo prédio do Centro Espírita Amor e Caridade (Ceac), já responsável pelo Albergue Noturno. O serviço é mantido com recursos do MDS, encaminhado ao Fundo Municipal de Assistência Social e repassado ao Ceac, informa Egli Muniz, secretária municipal do Bem-Estar Social (Sebes).

De acordo com ela, a casa dispõe de uma assistente social e de uma psicóloga. As profissionais fazem as abordagens na rua e convidam os sem-teto a ir para lá, já que o direito constitucional de ir e vir é garantido. “Elas conversam, tentam manter o diálogo. A casa é o resgate da rua. Mas o trabalho é lento. Eles já têm vínculos com a rua. É um trabalho de conversa, de convencimento”, acrescenta a secretária.

Segundo Muniz, o serviço oferece oficinas socioeducativas e, paulatinamente, os prepara para o mercado de trabalho. Também matém parceria com a Secretaria Municipal de Saúde para eventuais tratamentos. Quem segue o acompanhamento até o fim ainda tem a chance de voltar a estudar, explica a titular da Sebes. Supletivo e alfabetização de adulto são as alternativas.

____________________

Números a confirmar

O resultado da pesquisa encomendada pelo MSD, que ouviu 152 moradores de rua em Bauru, coincide com estudo realizado pela Faculdade de Serviço Social de Bauru (FSSB) da Instituição Toledo de Ensino (ITE), em 2005. Na época, no entanto, foram encontrados 52 moradores de rua.

A diferença entre os dois números referentes à população nessa situação será confirmada a partir do trabalho a ser desenvolvido pela Casa de Referência à População Adulta de Rua, que começou a funcionar recentemente. A expectativa é que o serviço identifique de 60 a 80 pessoas nesta situação, informa a titular da Sebes, Elgi Muniz.

As informações levantadas pela casa balizarão as políticas públicas municipais. Já a pesquisa do MDS norteará as ações do governo federal. Mas seja qual for a esfera, ela é impotente para resolver em plenitude o problema, avalia Richard Simonetti, vice-presidente do Ceac. A situação é ainda mais grave, diz ele, porque a população e aprendeu a conviver com ela.

“É a banalização de uma situação. Não existe uma mobilização popular em favor da solução do problema”, conclui.