10 de julho de 2026
Cultura

Eterno culto ao discão de plástico preto

Karla Beraldo
| Tempo de leitura: 3 min

Houve quem decretasse a morte do vinil com a chegada do CD e da tecnologia digital. Mas as “bolachonas” resistiram à mudança dos tempos e, não só conseguiram presenciar a decadência dos CDs, como voltam à cena, em plena era digital, ao lado do MP3.

Atualmente, artistas internacionais conceituados como Radiohead, Cat Power e Amy Winehouse tornaram-se símbolos da sobrevivência do vinil ao lançarem seus novos trabalhos também em LP, além dos formatos convencionais.

No entanto, apesar dos lançamentos e de existir público consumidor para o LP, ainda é alto o custo para produzir, tocar e ouvir os discos. No Brasil, um dos últimos grandes nomes da música a ter um vinil foi o grupo Los Hermanos, que teve seu álbum “4” prensado pela Poly Som em 2005, em edição limitada. Sendo assim, são os colecionadores e os eternos amantes do discão de plástico preto os maiores responsáveis por manterem acesa, por aqui, a chama do vinil.

Esse é o caso de Luiz Arnaldo Carrer, 61 anos, que desde menino nutre um carinho pelos LPs e há dois anos decidiu colecioná-los. Atualmente, o aposentado conta com um acervo de mais de 3 mil exemplares. O cuidado que ‘seo’ Carrer dedica à coleção o fez reservar um cantinho especial em um quarto nos fundos da sua casa, no qual todos os seus discos estão devidamente organizados e catalogados no computador. “Eu arrumo e anoto tudo sobre cada um deles para saber desde onde encontrá-los até o estado de conservação”, conta.

O apreço é tanto que o colecionador não consegue desfazer-se nem dos repetidos. “As vezes eu compro um disco que eu já tenho porque está em melhores condições do que o meu. Mas eu fico com dó de trocar ou vender e acabo ficando com os dois. No máximo, dou um deles para algum amigo”, comenta.

Ritual

Entre os colecionadores tem uma característica que é unânime: ouvir vinis é um ritual. “Para mim é sempre emocionante. O gostoso é você parar, limpar o disco, preparar o aparelho e se deliciar com a música”, relata Carrer.

Luís Freitas, 55 anos, possui cerca de 300 LPs e também se deixa levar pelo prazer de ouvi-los desde moleque. Para ele, é um momento não só de dedicação à música como também uma proposta de viagem a outros tempos. “É, de certo modo, nostálgico. Cada seleção me remete a um tempo da história e a um momento da minha vida”, conta. Hábito que também compartilha com as filhas. “Gosto de mostrar para elas como eram os artistas, as capas, é uma maneira de contar histórias”, complementa.

Antes mesmo de ouvir, o prazer já começa na procura. Para o estudante de jornalismo Vinícius Ramires Alvares, 22 anos, a imprevisibilidade diante do que você vai achar quando sai à caça de vinis é uma das tarefas mais empolgantes. “Você encontra coisas muito diferentes, trabalhos experimentais e raridades que nunca imaginaria achar. É muito diferente de você ir até uma loja de CD, onde normalmente já sabe o que está procurando e o que vai levar. Agora, quando você vai atrás do vinil, nunca sabe o que vai encontrar”, conta.

Em Bauru, a Feira do Rolo, que acontece aos domingos na rua Gustavo Maciel, e os sebos da cidade são o reduto preferido dos colecionadores. E ‘seo’ Carrer deixa um aviso: “se alguém encontrar o primeiro disco do Roberto Carlos, guarde. É uma preciosidade e vale muito dinheiro”, brinca.