O nosso estilo de vida acaba aos poucos transformando o nosso caráter. Assim acontece com Lourenço, um dono de uma loja que compra objetos usados. Pouco a pouco, o simples ato de negociar passa a ser para ele um prazer e uma forma de compreender o seu universo. Explorar os clientes que procuram sua loja quando atravessam dificuldades financeiras tornando o negócio um jogo faz com que Lourenço comece a ver em tudo e até mesmo nas pessoas um fetiche, ou seja, um instrumento de prazer. Tudo se torna consumo ou o que Marx chamara de fetichismo da mercadoria. A partir daí a pessoa humana passa a ser “coisificada” por Lourenço, o que faz com que não somente o ralo, mas também seu universo comece a cheirar muito mal. A reflexão oferecida pela pérola cinematográfica “O Cheiro do Ralo”, de Heitor Dhalia, é de extrema atualidade para todos nós que vivemos em uma sociedade de consumo.
No que diz respeito à realização pessoal e ao sentido da vida, uma das dificuldades que nós, homens e mulheres ocidentais, encontramos consiste na mentalidade formada pelo modo de produção capitalista. Ao nascer somos introduzidos em um determinado cosmos sócio-econômico e, automaticamente, levados a procurar nossa realização pessoal através de um determinado relacionamento de posse com aquilo que existe em nosso exterior. Adquirimos a crença (e isso é somente uma crença) de que as coisas das quais tomamos posse nos trazem valores que buscamos de forma consciente ou inconsciente. Se visto determinada marca de roupa ou tenho determinado carro alcançarei respeito, serei reconhecido como alguém de sucesso e pelo menos terei o prazer de exteriorizar minha realização pessoal. De uma forma inconsciente aprendemos a fazer uma relação direta do ser com o ter e, para sermos felizes, nos lançamos em uma constante busca do possuir. Através de diversos mecanismos, como o marketing e a propaganda ou o conteúdo veiculado pelos meios de comunicação de massa que são patrocinados por produtos que devem ser vendidos, somos convencidos de que quanto maior for o nosso poder de compra, maior será o nosso valor como pessoa. No mundo capitalista, até mesmo a religião acaba reproduzindo teologicamente este tipo de mentalidade: quanto mais tenho, mais próximo estou da graça de Deus. Assim faz-se necessário possuir bens, títulos, publicidade, relacionamentos e até mesmo pessoas. Esta mentalidade fundamentada na posse acaba se refletindo em nossa própria linguagem, com a substituição cada vez mais freqüente do verbo “ser” pelo “ter” acompanhado de seu respectivo pronome possessivo: não sou exatamente amigo, mas tenho os meus amigos, eu não vivo um relacionamento de namoro, mas tenho minha namorada, não faço parte de uma família, mas tenho minha família, não moro em determinada rua, mas é a minha rua, não participo da política da cidade que não somente é minha, mas tenho minha cidade e da mesma forma meu país, meu mundo...
Sem dúvida alguma, o desejo de possuir vem de nossa tendência natural à incorporação. Ao comer ou beber vamos in-corporando um pouco do mundo, ou seja, fazemos com que o universo torne-se parte de nosso corpo, de nosso ser. A mentalidade capitalista intensifica esta necessidade de incorporação tornando-a simbólica e mágica. Em outras palavras, eu não sou dono de um amigo, não tenho posse de uma namorada, a cidade não é minha. Essa concepção de posse é pura ilusão, pois ninguém é de ninguém, e apenas vivemos relacionamentos vivos com determinadas pessoas, dos quais pertencem conflitos, momentos de prazer, aprendizado e até mesmo rompimento. A cidade não é somente minha, mas de toda uma comunidade e tudo que deve ser decidido em relação a ela deve ser pensado não somente em meu benefício, mas no benefício de todos que nela vivem. Porém, no universo movido pelo capital adquirimos a crença de poder fazer com que coisas se tornem extensões de nosso ser. Assim, tudo no universo pode ser por nós introjetado, criando a ilusão de que ao tomar posse de coisas estou expandindo meu ser no mundo. O consumo, coração que movimenta o organismo capitalista, é uma atividade de incorporação por excelência. Nós somos à medida que consumimos. Juntamente com o ter, o consumo nos traz a idéia do poder de compra que nos leva ao prestígio e à atenção de todos. Mesmo que esta compra me leve a quilométricas prestações e a dívidas que me escravizam por até cinqüenta meses. O consumo alcança sua extrema forma quando somos levados a “comprar” não somente bens, mas também pessoas e até mesmo Deus. O grande drama do homem capitalista é que a verdadeira alegria de viver, o prolongado prazer de estar na vida, não se encontra no adquirir, mas no fato de viver e realizar algo significativo, algo que realmente me faz compreender que a vida tem sentido.