08 de julho de 2026
Ser

Minha história: O feiticeiro e o aprendiz


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Eu tinha 23 anos (1965) quando o conheci lá na Delegacia de Saúde de Bauru. Ele respondia pelo setor de contabilidade: tudo que dizia respeito ao pagamento de despesas era com ele mesmo. Tinha uns 55 anos. Tipo longilíneo, sistemático, temperamento hermético, elegante no vestir (sempre aprumado com paletó e gravata, estivesse quente ou frio). Quando estava envolto no trabalho, isolava-se. Tornava-se uma ilha. Não admitia intromissão alienígena no seu antro sagrado.

Atrás de um escudo de rigidez, ao lidar com afazeres profissionais, ocultava uma alma generosa. Procurava sempre ajudar. Eventualmente quando feria interesses pessoais era em decorrência da lisura com que tratava seu “métier”. Com o ilícito jamais pactuava. Tudo tinha que ter respaldo legal. Ensinou-me a gerir a coisa pública em todos os seus meandros burocráticos: trabalhar com verbas de adiantamentos, fazer balancetes, prestar contas, etc.

Como um bacharel de direito ensinou-me a elaborar, a participar de uma sindicância administrativa profícua e eficaz. Buscar sempre a verdade, estivesse onde ela estivesse. Em cada delegacia de saúde havia um funcionário mais antigo que era designado (sem ônus para o Estado) como chefe de seção administrativa. Ele era o chefe na Delegacia de Saúde de Bauru. O Departamento de Administração do Pessoal do Estado (DAPE) promovera certa vez um curso só para chefias.

Tal curso era apostilado e por correspondência. Ele solicitara meu auxílio para que estudássemos juntos e respondêssemos aos questionários. No final só ele recebeu um certificado de aproveitamento. Mas muito aprendi sobre administração pública com tal curso. O que me foi útil mais tarde quando fui designado chefe da seção de administração de subfrota, já na Divisão Regional de Saúde de Bauru. Ele então foi designado chefe da seção de orçamento e custo.

Ele era um inveterado celibatário até que já com 60 anos casou-se com dona Laura, uma mulher de epiderme parda, nos seus 50 anos. Era ela de pouca instrução, mas dona de um coração de ouro. Alma pura, tinha uma sabedoria quase divina. Ponderada, mansa, doce, muito polida no trato com as pessoas. Os dois eram tementes a Deus. Católicos, comungavam todos os domingos. Tive a honra de ser algumas vezes um comensal na casa dos Battaiolas. Ela cozinhava maravilhosamente.

Ele amava profundamente o que fazia. Era pertencente a uma raça já em extinção. Era um “workaholic”. Contrariado, aos 70 anos foi compulsoriamente aposentado. No dia de sua despedida da repartição, numa comovente homenagem, chorou copiosamente. Absorvi por osmose a dor pungente que apunhalava seu coração senil. Ele foi o protótipo do servidor probo. Avelino Battaiola, no serviço público, foi meu feiticeiro: seduziu-me, atraiu-me, enfeitiçou-me na arte de bem servir.

Gilberto Sidney Vieira