Professor titular da Faculdade de Medicina da USP, Giovanni Cerri foi incumbido da missão de coordenar o que promete ser o mais revolucionário pólo de tratamento, ensino e pesquisa sobre o câncer da América Latina.
Em entrevista à Associação Paulista de Jornais, o diretor-geral do Instituto do Câncer descreve as razões que o motivaram a assumir a ousada empreitada e revela que o fator multiplicador fará do organismo referência internacional na atenção à doença que é a segunda principal causa de mortes no Estado. “Nós vamos atender o que se exige no momento, ou seja, o presente, o paciente diagnosticado, mas o fundamental é que teremos um instituto que pensa no futuro.” Leia a seguir os principais trechos da entrevista...
Associação Paulista de Jornais - Como começará funcionando o Instituto do Câncer?
Giovanni Cerri - Será ativado plenamente até 2009. Por que? É um instituto muito grande, muito complexo e precisa treinar pessoal, formar pessoal para entrar em pleno funcionamento.
APJ - Quais os números? Atendimentos, cotas de procedimentos? Já estão definidos?
Cerri - Em internação serão 18 mil a 20 mil pacientes por ano e 70 mil quimioterapias/ano. Os leitos são 500, contando os de hospital-dia. E mais 22 salas cirúrgicas.
APJ - Onde funcionará?
Cerri - Na avenida Dr. Arnaldo, no prédio onde funcionava o Instituto da Mulher.
APJ - Houve necessidade de alguma reforma ou adaptação no prédio?
Cerri - As adaptações são muito pequenas, são dois andares que precisarão ser modificados. O Instituto do Câncer precisa de muito diagnóstico, então vai ser expandida esta estrutura. E também vai ser expandida a área de radioterapia, que vai ser a maior do país. Exatamente para atender esta grande demanda.
APJ - A idéia é que se transforme em referência?
Cerri - Será o maior Instituto do Câncer do País, mas será referência até internacional. Quais as justificativas? Câncer é a segunda causa morte no país e, por causa do envelhecimento da população, tende a ser a primeira. Esta incidência vai aumentar progressivamente. Em duas décadas, o câncer deve ser a primeira causa morte no País. É muito importante pensar no futuro. Criar um instituto olhando este aumento da incidência do câncer. Hoje já se diagnosticam 100 mil novos casos por ano no Estado. Mostrando que já é um dado relevante.
APJ - Este indicador preocupa o Estado?
Cerri - Esta é a razão de se transformar este instituto. Foi feita uma parceria entre o governo do Estado, a Faculdade de Medicina da USP e o Hospital das Clínicas. Para que, sob a supervisão técnica da Faculdade de Medicina, e apoio do HC se transforme este instituto não só num grande centro de assistência, mas também em um grande núcleo de ensino e pesquisa.
APJ - Então o foco não será meramente assistencial?
Cerri - Qualquer centro importante, não é só assistencial. Uma das grandes metas deste instituto é criar recursos humanos na área de saúde especializados para o tratamento do câncer. Não só para o Estado de São Paulo, mas para o País inteiro. Como, de fato, o HC já faz em outras áreas. O objetivo então é preparar os recursos humanos para as próximas décadas.
APJ - O esforço, então, será de capacitação?
Cerri - Não só médicos, mas de toda a saúde. Este instituto pode dar assistência a um número limitado de pacientes, mas vai realizar programas de prevenção a distância para o País inteiro, através de sua estrutura de ensino. É mais importante prevenir e diagnosticar o câncer precoce do que acabar receber um paciente com metástase.
APJ - O senhor projeta algum tipo de interação com unidades reconhecidamente de excelência como as de Jaú e Barretos, por exemplo?
Cerri - O intuito é que o instituto sirva como pólo de saúde pública do câncer e vai colaborar com todos os institutos, públicos e privados. Como? Vai colaborar com os programas de prevenção, com os programas de treinamento de recursos humanos para estes institutos. Também no câncer há algumas áreas mais especializadas. Inclusive este instituto vai poder receber pacientes de outros hospitais. Por exemplo, câncer de mama todo mundo trata. Agora, existem outros tipos que exigem tratamento muito especializado. A colaboração vai ser também na área assistencial. De poder receber pacientes e introduzir medicamentos novos no tratamento do câncer. Em colaboração com toda a rede do SUS no Estado de São Paulo.
APJ - Haverá algum impacto nas regiões do Estado com sobrecarga de demanda?
Cerri - Sem dúvida, a criação do instituto, que vem triplicar a oferta de leitos para câncer, é para ajudar a atender a demanda em todo o Estado. E essa colaboração não vai se dar apenas na área de assistência. A idéia é também na área de pesquisa colaborar com os institutos que realizam pesquisas. Agora será uma pesquisa compartilhada. Isso é importante que a pesquisa anda mais rápido e tem resultados melhores. Vai se realizar um compartilhamento.
APJ - E o fornecimento de medicamentos? Também será possível?
Cerri - Este instituto é resolutivo, ou seja, o paciente entra com diagnóstico de câncer. E o tratamento dele vai até o final, inclui cirurgias, tratamento clínico, quimioterapia, radioterapia e até a reabilitação. Para os pacientes do hospital, os medicamentos vão ser fornecidos até o fim do tratamento.
APJ - Como se fará no caso de pacientes que necessitam de quimio e radioterapia e que moram longe da Capital?
Cerri - Existem tratamento que necessitam de internação e tratamentos ambulatoriais. Geralmente a quimio e radioterapia são feitas ambulatorialmente. Se o paciente for de fora de São Paulo e não tiver onde ficar, ele será alojado em algum lugar que permita que ele faça o tratamento sem ocupar um leito de internação.