09 de julho de 2026
Geral

Mãe 21 vezes revela como criou os filhos

Lígia Ligabue
| Tempo de leitura: 5 min

Mãe 21 vezes, avó 79 vezes e bisavó já 40 vezes. Cacilda do Nascimento, 78 anos, talvez tenha a maior prole de Bauru, além de criar como filhos três enteados e três netos. Pequenininha, vaidosa e muito ativa, ela conta que teve todos os filhos de parto normal e apenas um no hospital. Todos os outros nasceram nas mãos de parteiras. Dias antes de festejar seu 57.º Dia das Mães, Cacilda se orgulha de ver os filhos bem, os netos se casando e os bisnetos crescendo. “Criar um filho é um desafio, mas segui duas coisas: criei eles com muito amor e sempre ensinei o caminho do bem”, revela.

Na casa onde mora há mais de 50 anos, na Vila Giunta, bem em frente a uma praça que ela e os vizinhos ajudam a manter, dona Cacilda recebeu o Jornal da Cidade. Na sala, repleta de bonecas e bichos de pelúcia, ela não pára quieta. Em poucos minutos conta a infância, a morte do pai que se jogou em um poço e o amor que tinha pela mãe, sem perder o sorriso do rosto.

Cacilda nasceu em Muqui, Espírito Santo, em novembro de 1929. Aos 6 anos, mudou-se com a família para uma fazenda na região de Bauru. Seu pai era marceneiro e trabalhava instalando venezianas em construções. Quando ela tinha 18 anos, ele se matou.

Ela, a mãe e 15 irmãos se mudaram para Bauru, numa casa na Vila Zillo. Na época, as mulheres costumavam se casar muito cedo, mas Cacilda preferiu ajudar a mãe. Mas o plano de ficar com a família foi interrompido aos 21 anos, quando ela conheceu José da Silva, 18 anos mais velho que ela. Eles começaram a namorar e Cacilda engravidou. Quando o irmão percebeu, ela e o namorado fugiram para Penápolis. Lá, descobriu que José, na verdade era Benedito e tinha três filhos. “Não me importei. A gente se gostava muito. Acabei criando os três junto”, conta.

Bauru

Depois de dois anos em Penápolis, ela voltou para Bauru. Nesta época, já tinha dois filhos com Benedito e chegou na cidade com mais um na barriga. Os anos foram passando e a família aumentando. Todos os 21 partos de Cacilda foram normais e apenas um deles foi no hospital. “Justo o que nasceu com problemas e morreu logo depois do parto. Todos os outros foram em casa, com parteira”, conta. Em uma das gestações, Cacilda esperava trigêmeos. Nasceram Valdir, Valdemir e Valmir. Porém, Valmir morreu poucas horas depois do parto.

Ela conta que nunca fez acompanhamento pré-natal, nem teve dificuldades nas gestações. “Era tudo muito rápido. Uma vez estava fazendo sabão em casa, mexendo com soda cáustica, quando um deles começou a nascer”, lembra. E horas depois de ter mais um filho, ela voltava rapidamente para a rotina de cuidar da casa. “Às vezes, a parteira até ficava brava, porque tinha o filho à noite e de madrugada eu já estava limpando o quarto e lavando os lençóis”, conta.

Cacilda tinha 21 anos quando nasceu Dejair, seu filho mais velho e quase 50 quando nasceu Marylin, a caçula. “Era uma vida muito simples, sem mordomia nenhuma”, lembra. Além de cuidar dos filhos e da casa, Cacilda também trabalhava como cozinheira em uma rádio de Bauru. Os filhos também ajudavam, “A gente torrava sacos de amendoim, que os meninos vendiam no estádio. Juntava um bom troco”, recorda.

Filhos

Cuidar de tanta criança não foi fácil. Ela conta que a maior preocupação era quando os meninos montavam em cavalos e seguiam para o rio Batalha. “Eles chegavam todos cobertos de lama. Eu mandava todos para o banheiro e dava um bela cintada”, conta. O filho João Luiz, hoje com 44 anos e o único a morar com a mãe, lembra direitinho. “Ela pegava um sabugo de milho e esfregava para valer o nosso pé, embaixo de água gelada”, lembra.

Valdemir, 42 anos, lembra da infância com carinho. “Foi uma época boa. Éramos uma família bem unida e com tantos irmãos, nunca faltava gente para brincar. Ela é uma excelente mãe. Sempre deu apoio pata todos nós”, afirma.

Mas as brincadeiras eram o único trabalho que os filhos deram a Cacilda. “Todos eram muito saudáveis. Acho que foi misericórdia divina”, diz. Entre os sustos passou com as crianças, ela conta que uma vez, sua filha Mara, na época com 2 anos, bebeu água numa caneca que ela tinha acabado de usar para manejar soda cáustica. “Ela ficou com a boca toda inchada e a garganta e o peito começaram a ficar bastante feridos. Embrulhei ela numa toalha e corri para o hospital”, conta.

A perda de Mara foi a grande tristeza da vida de Cacilda. A primeira filha menina do casal morreu quando tinha 32 anos, em um acidente de carro, deixando três filhos para serem criados pelos avós.

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Reunião em família

Hoje Cacilda conta que é difícil reunir toda a família. Apesar de apenas dois filhos morarem fora de Bauru- Márcia, que mora no Rio de Janeiro e Ademir, em São José do Rio Preto - juntar mais de uma centena de pessoas na casa é complicado. “Mas vejo toda a semana os que moram na cidade. Os que estão fora não passo muito tempo sem vê-los também”, diz.

Cacilda e Benedito se separaram após 40 anos de união e 21 filhos. Atualmente, ele mora com uma das filhas. Depois, ela namorou por mais 20 anos um senhor, que já faleceu. “Agora quero arrumar um general”, brinca.