10 de julho de 2026
Geral

Com intervenções em alguns casos, parto ganha apelido de Frankenstein

Luciana La Fortezza
| Tempo de leitura: 3 min

O parto vaginal não é sinônimo de parto natural. Em muitos casos, o processo sofre tantas intervenções que recebe a pecha de Frankenstein. Elas vão desde a raspagem dos pêlos pubianos, ao corte e à sutura no perínio, passando por lavagens intestinais, rompimento induzido da placenta e uso de ocitocina para acelerar o nascimento, enumera a psicóloga, educadora perinatal e doula Celma Regina de Godoy Araujo.

E uma intervenção leva a outra, acrescenta a ginecologista e obstetra Carla Daher. “Elas têm o seu valor, assim como a cesárea. São fundamentais, mas quando necessárias. Eu faço pouquíssimas intervenções, respeito muito a mulher”, acrescenta. Um outro problema dos partos atuais é que a mulher ainda tem de dar à luz em posição ginecológica, acrescenta a doula e fisioterapeuta especializada em saúde da mulher Andréia Cristina Eiras Weckwerth.

“O ideal é que não seja deitada. Em pé a gravidade ajuda. A bacia está mais aberta, a pelve está aberta. Já deitada, dificulta o processo. O ideal é que a mulher adote a postura que seja mais confortável para ela”, acrescenta. A posição de litotomia (da cadeira ginecológica) foi criada com o advento da obstetrícia, informa Daher.

“Os médicos eram homens. Botavam a mulher deitada e colocavam aquele campo na frente da face da mulher para ela não ficar constrangida. A mesa era na altura ideal para o médico sentar e ficar de frente com a vagina dela. Não foi pensada para a mulher”, informa.

Historicamente, o acompanhamento do trabalho de parto ocorria no ambiente domiciliar, no qual a grávida era assistida por outra mulher, geralmente parteira, relembra Celma. Mas a partir do século 20, segundo texto encaminhado pela psicóloga à reportagem, especificamente depois da Segunda Guerra Mundial, em nome das elevadas taxas de mortalidade materna e infantil ocorreu a institucionalização do parto no hospital e sua medicação.

Com isso, enfatiza Celma, a família e a rede social foram substituídas pelas rotinas hospitalares, num ambiente que atende às necessidades da equipe médica, e não da gestante.

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Custo e benefício

O parto em casa é muito arriscado para o bebê. Ao avaliar custo e benefício, não vale a pena, na avaliação da pediatra neonatal Giselle Januzzi Zechi. Ela também é favorável ao parto humanizado, mas em ambiente hospitalar.

“Têm muitas coisas a serem feitas ainda, mas dá para fazer com que a mãe se sinta satisfeita tendo a retaguarda hospitalar. Ela poderia dar à luz num ambiente separado, que não fosse associado ao centro cirúrgico com outros tipos de paciente. Seria o ideal. Uma luz mais adequada, uma decoração mais acolhedora. Isso se chama atendimento mais humanizado, sem romantizar o parto domiciliar, que não vale a pena”, reitera.

De acordo com ela, as vantagens citadas em casa são ínfimas quando comparadas aos riscos que o bebê corre, caso necessite de retaguarda hospitalar. Se ele nasce com falta de oxigênio, com parada cardiorrespiratória ou com malformação, não receberá a imediata e ideal assistência em casa. Para a pediatra, mesmo que em cada domicílio houvesse uma ambulância, como no caso da Holanda, ainda assim o critério deveria ser rediscutido.

“Em todos os partos eu tenho usado a humanização no sentido de acolher mãe, pai e bebê na primeira meia hora de nascimento. Ponho no peito. Está associada a um aleitamento mais duradouro e a uma descida de leite mais precoce. Foi falado em campanha no ano passado e eu faço isso há mais de 15 anos. Nós já estamos tentando humanizar na nossa unidade”, conclui Giselle.