Em um primeiro momento, a informação de que um teclado de computador pode ser mais sujo do que a tampa de um vaso sanitário pode parecer um exagero, mas pesquisa feita pela revista “Computing Which”, da Inglaterra, mostra que não é. O estudo revela que esse periférico do computador pode abrigar mais bactérias do que um utensílio sanitário. A explicação está na higienização de um e de outro.
Enquanto o vaso sanitário, por mais imundo que seja, passa por uma faxina periódica, o mesmo não acontece com o teclado do computador. Pelo menos, não com a maioria. Via de regra, o equipamento permanece meses ou até anos sem ser limpo. Enquanto isso, as bactérias vão se proliferando, principalmente se o teclado for dividido por duas ou mais pessoas.
“Uma tosse, um espirro ou mesmo a respiração constante em cima do teclado são o suficiente para espalhar vírus, bactérias e fungos”, diz o biólogo Olavo Speranza de Arruda, 61 anos. Segundo ele, por ser um microorganismo, a bactéria precisa de muito pouco para se reproduzir ou permanecer viva por bastante tempo. Basta que o ambiente lhe proporcione as condições ideais, que são calor, umidade e nutrientes.
Olavo lembra que a tosse, o espirro e a respiração, além de disseminar os microorganismos, servem como fonte de umidade para esses seres invisíveis a olho nu. A sujeira e os restos de alimentos que caem no teclado são a fonte de nutrientes que eles precisam para continuar vivos e se reproduzir.
Sem uma faxina periódica no teclado, as bactérias ficam ali instaladas até que alguém toque nas teclas. Aí tem início um processo que pode desencadear intoxicações e outras reações negativas no organismo humano. O simples ato de levar a mão à boca é o suficiente para transportar os microorganismos do teclado para dentro do corpo.
De acordo com o biólogo, isso não significa, necessariamente, que a pessoa vá ficar doente. Mesmo porque, como lembra Olavo, a boca vive infestada de bactérias e nem por isso o ser humano vive o tempo todo doente. Nem todas as bactérias são nocivas à saúde. Isso depende muito do sistema imunológico de cada um.
“A boca tem todas as condições para a sobrevivência e proliferação dos microorganismos. Ela é quente, úmida e cheia de nutrientes”, aponta. Quando escovamos os dentes ou lavamos a boca, uma grande quantidade dessas bactérias é eliminada, mas um beijo, a mão ou qualquer outra coisa que é levada à boca é o suficiente para encher novamente de invasores minúsculos. Ao falar, tossir ou espirrar, eles são lançados para fora e muitos caem no teclado e por lá ficam até que alguém passe a mão e os leve de volta para a boca.
Por isso, a limpeza do equipamento é importante. Os vasos sanitários também estão infestados de bactérias e outros microorganismos, mas ao contrário da maioria do teclados, eles passam por uma faxina regularmente. E, normalmente, usam-se produtos químicos para isso, o que aumenta as chances de eliminação dos seres nocivos.
“Nós temos a idéia de que o banheiro é o lugar mais sujo da casa, quando na verdade é onde mais se limpa. É onde se usa componentes químicos fortes, que matam bactérias”, observa o biólogo.
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Sem tempo
A pesquisa divulgada pela revista britânica “Computing Which” foi feita dentro da própria empresa. Os pesquisadores analisaram 30 teclados usados pelos jornalistas e descobriram a presença de bactérias capazes de causar de diarréia à intoxicação alimentar.
Entre as bactérias estavam a Escherichia coli, que pode causar gastroenterite e infecções das vias urinárias, assim como o Staphylococcus aureus, que também pode provocar diferentes tipos de infecção, e até as enterobactérias, que podem produzir envenenamento.
Depois de analisar os teclados, os pesquisadores examinaram a tampa de um vaso sanitário da mesma empresa e descobriram que estava mais limpa do que muitos teclados. Na conclusão do trabalho, os pesquisadores apontaram a correria do dia-a-dia como a culpada pela sujeira nos computadores. Sem tempo para poder almoçar tranqüilamente, muitos funcionários fazem as refeições na frente do computador. Com isso, farelos e restos de alimento caem entre as teclas e ajudam na proliferação das bactérias.
Em 2005, uma pesquisa feita pela Sociedade Americana de Saúde e Epidemiologia já havia alertado para o risco que o teclado pode representar à saúde. Na ocasião, o objeto de estudo foram os teclados dos computadores do hospital Northwestern Memorial, em Chicago.
Depois das análises, viu-se que havia uma grande quantidade da bactéria Staphylococcus aureus (a mesma apontada na pesquisa feita pela revista). Trata-se de um microorganismo responsável pela maioria das mortes por infecção hospitalar e está associada a meningite, pneumonia e septicemia, segundo os pesquisadores.
O estudo alertava para o cuidado que os profissionais da saúde devem ter ao manusear um teclado. As bactérias podem, por exemplo, ser transmitidas pelas mãos dos médicos.
O procedimento correto, segundo os pesquisadores, é lavar as mãos após a utilização do computador. De acordo com eles, algumas bactérias mais resistentes sobrevivem durante 24 horas nos teclados.