09 de julho de 2026
Geral

Celular causa a mais nova ‘fobia’ da vida moderna, diz estudo

Luciana La Fortezza
| Tempo de leitura: 3 min

A maior parte das fobias ainda está relacionada a estímulos primitivos, como medo de escuro e altura. Mas em tempos modernos, a lista de razões que provocam medo descontrolado agora inclui também o celular. O problema, batizado como nomofobia, foi identificado por pesquisadores britânicos.

Eles entrevistaram duas mil pessoas, sendo que 53% se sentem ansiosas por causa da falta de bateria ou crédito no celular. A mesma porcentagem garante ficar estressada em pensar na possibilidade de perder o aparelho ou de ficar sem sinal. O estudo, realizado pela empresa de correios do Reino Unido, The Post Office, denominou o medo de nomofobia. “Nomo” é a abreviação inglesa de “no mobile” (sem telefone).

Existe, no entanto, uma diferença entre estresse e fobia. No primeiro caso, a preocupação tem uma lógica racional. No segundo, é absolutamente descontrolada, explica o professor do departamento de psicologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp) Sandro Caramaschi. “Fico em dúvida se o pessoal utiliza corretamente o termo fobia. Será que as pessoas têm medo mesmo de ficar sem celular?”, questiona ele.

O vereador Primo Alexandre Mangilardo tem. No entanto, suas explicações são justificadas. “Ficaria muito decepcionado se um cliente me procurasse e não me encontrasse. Procuro atender todas as ligações. Se eu não puder falar, aviso que ligo depois ou envio imediatamente uma mensagem explicando por qual razão não pude atender. Sempre dou retorno”, informa. Ele não fica sem celular ligado desde 1994.

Para tanto, carregadores não lhe faltam. Tem no carro, no escritório de Bauru e de no São Paulo, na Câmara Municipal, um plugado no notebook e outro na cabeceira da cama. Primo adquiriu um aparelho para atender clientes, outro tem plano corporativo, comprou um terceiro telefone para falar com os filhos no Exterior, além de palmtop, que também faz ligações.

“Em janeiro fiquei uns 15 dias nos Estados Unidos. Habilitei o celular e fiz um plano. Fico muito preocupado de alguém me procurar e não me encontrar. Não considero uma fobia, mas talvez esteja no limiar”, afirma de maneira descontraída.

A estudante Agda Lucy Barbosa Rosa, 19 anos, também acredita ter um comportamento limite. “Não sei se é neurose ou costume. Não vivo sem essa tecnologia”, diz. Desde os 15 anos, não desgruda do aparelho. Dorme com ele sobre o travesseiro e, quando não consegue carregá-lo, pega a bateria da mãe. “Se fico sem, parece que está faltando alguma coisa”, conclui.

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Medo descontrolado

Medo é um sentimento necessário. A sensação de perigo favorece a segurança pessoal. Ele, no entanto, transforma-se em fobia quando o pavor foge ao controle e atrapalha a vida do sujeito. O alerta é do professor do departamento de psicologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp) Sandro Caramaschi.

“O fato da pessoa se sentir inquieta ou preocupada de estar sem bateria ou sem celular é uma coisa. Outra é ela entrar em pânico e o desespero produzir alterações psicológicas ou até mesmo físicas”, explica. Existe ainda uma terceira situação, também não caracterizada como fobia. Trata-se do estresse provocado por situações sociais, que muitas vezes pode ser momentâneo.

O exemplo é a preocupação do trabalhador em perder um aparelho cedido pela própria empresa, que o quer disponível 24 horas ao dia. “Para ser fobia tem que existir uma desorganização social, desespero forte. Na fobia a pessoa sente muito medo, algo descontrolado. Até medo iminente de morte”, informa. De acordo com Caramaschi, existe ainda outra distinção para o medo. Trata-se do estresse pós-traumático.

“O sujeito passa por seqüestro-relâmpago ou acidente com carro. Fica com medo associado àquela situação, que tende a desaparecer. Não chamamos de fobia”, acrescenta. Quando ela de fato ocorre, pode vir isolada, mas normalmente é acompanhada de outras. “Normalmente, compõem um quadro”, conclui o psicólogo.