09 de julho de 2026
Geral

Entrevista da semana: Arcôncio Pereira da Silva

Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 10 min

O último dos comunistas da antiga está indo embora de Bauru. Arcôncio Pereira da Silva, 92 anos, está de malas prontas para se mudar para São José do Rio Preto. Mas ele vai já pensando em voltar. “Vou passar um tempo lá, mas quero voltar para Bauru”, planeja.

Antes, porém, Arcôncio viajará mais de 2,5 mil quilômetros. Ele deve voltar à cidade natal, em Viçosa, Alagoas, onde está a maior parte da família, por sinal bem grande. Com ele, são 14 irmãos.

A primeira vez que fez esse trajeto, Arcôncio tinha apenas 20 anos. Acompanhado por outros dois amigos, ele deixou a família em Alagoas para tentar melhor sorte na vida em São Paulo. Depois de um início sofrido, como ocorre com praticamente todos os nordestinos que vem à procura de emprego, Arcôncio teve contato com uma das melhores experiências que viveu até hoje: um discurso do político e líder comunista Luiz Carlos Prestes.

Foi o que bastou para ele se interessar pela causa comunista. Na entrevista concedida ao Jornal da Cidade, ele conta um pouco dessa experiência de ser comunista numa época de muita repressão.

Jornal da Cidade - Quais foram os motivos que trouxeram o senhor a Bauru?

Arcôncio Pereira da Silva - Eu tive um desentendimento com meu pai. Ele educava os filhos no sistema antigo. Tudo tinha de ser feito de acordo com o que ele determinasse, inclusive namoro e casamento. E eu me opunha a isso. Por várias vezes, nós varamos a noite conversando sobre isso. Eu tentava mostrar para ele que o mundo tinha evoluído, mas ele não aceitava. Meu pai era semi-analfabeto. Eu lia a Bíblia para ele. Então, para acabar com as divergências decidi ir embora de casa.

JC - Inicialmente, os planos eram ir para onde?

Arcôncio - Um amigo, que também queria sair de casa, deu a idéia de vir para São Paulo. Ele dizia que São Paulo era bom e coisa e tal e decidimos vir para São Paulo. Viemos em três.

JC - O senhor tinha quantos anos naquela época?

Arcôncio - Eu tinha uns 20 anos.

JC - E vocês vieram de que jeito para São Paulo?

Arcôncio - De Viçosa até Maceió, nós fomos de trem. Lá, nós pegamos um navio. Viajamos oito dias até chegar no Rio de Janeiro. As acomodações no navio eram ruins, a comida era péssima. Quando chegamos no Rio, decidimos ficar por ali mesmo. Nossa passagem era para Santos, mas conversamos com o pessoal do navio e conseguimos desembarcar no Rio mesmo. Começamos a procurar emprego, mas não aparecia nada. Como estava difícil, decidimos ir para São Paulo. Eu tinha um amigo de escola que morava em Guarantã, perto de Pirajuí, e resolvemos ir para lá. Viajamos de trem do Rio até Guarantã. Ficamos lá uns dias, meus amigos arrumaram emprego para trabalhar com café. Como não consegui nada para mim, resolvi ir para Fernão (perto de Duartina), onde tinha um conhecido meu. Ele era do Nordeste também. Cheguei lá, fiquei doente. Quando melhorei, decidi voltar para o Rio de Janeiro. Mas também não consegui nada. Fiquei lá uns oito dias e voltei para Guarantã. Até que um dia, uma pessoa me falou que a ferrovia estava expandindo e perguntou se eu não queria trabalhar lá. Como eu estava desempregado, eu aceitava qualquer coisa.

JC - E deu certo?

Arcôncio - Deu certo. No outro dia, ele foi conversar com o chefe dele e o chefe pediu para eu ir conversar com ele. Naquela época, o Getúlio estava apresentando a lei reduzindo a jornada de trabalho para oito horas diárias. Então, a Companhia Paulista de Estrada de Ferro precisava aumentar o quadro de funcionários. E eu aceitei. Passou uns dias, foram me chamar para fazer um curso em Dois Córregos. Fui uns dos melhores no curso e, com isso, fui admitido. Comecei a trabalhar em Vera Cruz (perto de Marília). Isso em 1936.

JC - E o senhor começou fazendo o quê? Qual era a função?

Arcôncio - Comecei trabalhando no pesado, carregando sacarias. Eu fazia serviços em geral. Com o tempo, foi melhorando. Até que eu fui transferido e vim parar aqui em Bauru. Na verdade, fui transferido para Agudos. Quando inauguraram o trecho de Bauru até Piratininga, aí eu vim para Bauru.

JC - Dava para manter um padrão de vida razoável com o que o senhor ganhava na ferrovia?

Arcôncio - Enquanto eu estava solteiro, dava. Fazia umas economias e conseguia viver bem. Mas logo arrumei namorada e me casei quando fui novamente promovido.

JC - O senhor foi promovido a quê?

Arcôncio - Fui promovido a conferente. Ainda dava para viver bem, mesmo depois de casado. Mudei para uma casa modesta. Era somente eu e ela. Quando veio 1949, fizemos a greve de Triagem (estação de Bauru) por causa dos baixos salários. No fim das contas, fui dispensado e preso por causa da greve. Fiquei seis meses na prisão.

JC - O senhor foi preso por ter participado da greve?

Arcôncio - Isso. Naquela época, não existia lei que permitisse a greve.

JC - O senhor ficou preso onde?

Arcôncio - Aqui em Bauru. Eu e mais alguns companheiros de São Paulo. Uma das coisas que me fez abrir os olhos para o que estava acontecendo com os trabalhadores foi o partido (comunista). Ele foi meu professor.

JC - Depois que saiu da cadeia, o senhor conseguiu emprego onde?

Arcôncio - Quando saí, fui trabalhar como jornaleiro. Depois, graças ao governador Jânio Quadros, fui trabalhar na Sorocabana (outra empresa que operava na estrada de ferro). A empresa não queria me contratar. Diziam que eu era agitador, grevista, comunista e uma porção de coisas. Quando o Jânio estava assinando a carta ordenando minha contratação, alguém disse a ele que eu era comunista. E o Jânio respondeu: mas comunista não tem família, ele não come? E assinou a carta.

JC - E o senhor foi contratado.

Arcôncio - Eu fiquei seis meses em observação. Durante esse tempo, me aconselharam a não abrir a boca, porque qualquer coisa que eu dissesse poderia ser usado contra mim. Depois que passaram-se os seis meses, fui contratado. Comecei a receber salário, me pagaram os atrasados. Aí eu criei coragem e comecei a abrir a boca.

JC - O senhor abria a boca para falar o quê?

Arcôncio - Para falar da luta dos trabalhadores. Falava o que tinha acontecido comigo. Mas muitos funcionários não gostavam de mim. Eles diziam que eu tinha sido favorecido, que minha contratação tinha sido imposta. Enfrentei resistência por isso. Fui dispensado em 1964. Mas antes disso, ajudei a organizar uma greve que parou a Sorocabana por 18 dias. A empresa tinha 18 mil funcionários, e apenas 250 trabalharam.

JC - Em 1964 veio o golpe militar e os comunistas foram duramente perseguidos. Como foi essa época para o senhor? Foi difícil conseguir novo emprego?

Arcôncio - Graças a um amigo que trabalhava na ferrovia, consegui trabalho na Sanbra. Antes disso, eu já havia procurado a empresa e eles me negaram um emprego. Ele escreveu uma carta e mandou eu entregar na empresa. Naquela época, a ferrovia tinha um peso tremendo. Trabalhei uns 15 dias lá e vi algumas coisas erradas. Os funcionários do turno do dia não faziam hora extra, mas os da noite faziam. Eu achava isso errado. A hora extra devia ser feita de dia. De noite, não. E eu estava organizando uma parada, mas a diretoria ficou sabendo. Me chamaram para conversar. Quando entrei na sala, tinha uma rodinha de chefes me esperando. Eles me perguntaram sobre a paralisação que estava sendo organizada e eu expliquei o motivo. No fim, eles me disseram que o funcionário que iria sair, e por isso abriu uma vaga para mim, não ia sair mais. Portanto, era para eu ir para casa e assim que surgisse uma outra vaga eu seria o primeiro a ser chamado. Quando eu ia sair da sala, um outro me perguntou se eu aceitava trabalhar no setor de serviços gerais. Eu respondi que aceitava qualquer coisa. E fiquei na empresa até o dia que cheguei para trabalhar e meu cartão de ponto não estava na entrada, como de costume. Fui conversar no escritório e fiquei sabendo que estava demitido.

JC - Em qual empresa o senhor trabalhou mais tempo?

Arcôncio - Na Companhia Paulista de Estrada de Ferro. Fiquei lá durante 14 anos. Eu trabalhei nas três empresas que exploravam a ferrovia: a Paulista, Sorocabana e Noroeste.

JC - O senhor lembra quantas vezes foi preso?

Arcôncio - Acho que umas seis vezes. Fiquei seis meses detido por causa da greve de Triagem. Três meses em Lins, em 1970. Depois passei uns 15 dias de novo preso em Bauru. Aqui em Bauru fui preso umas três vezes. Fora daqui, foi em Lins, Getulina e Pirajuí.

JC - E em algumas dessas vezes o senhor foi agredido fisicamente?

Arcôncio - Eles tratavam muito mal.

JC - Mas chegaram a torturar o senhor?

Arcôncio - Não. Eles empurravam, ameaçavam bater. Teve um delegado que levantou da mesa e veio pra cima de mim pra me bater, mas depois recuou.

JC - E o que a esposa do senhor achava dessa situação?

Arcôncio - Olha, a minha esposa gostava de mim. Apesar de tudo, ela me aceitava. Quando fui fazer o curso Stalin, em São Paulo, por ordem do partido, tive de deixar a família por um mês. O partido ficou de mandar uma pessoa para dar cobertura à minha família. Essa pessoa acabou gostando de uma outra e abandonou a casa. Parentes tiveram que ajudar. E as minhas filhas vendo tudo aquilo acontecer. Onde eu estava, não podia nem abrir a janela, era tudo trancado com cadeado. Eu não sabia onde estava. Sabia que estava em São Paulo, mas não tinha a mínima idéia de que região. Quando terminou o curso, ao invés de voltar para casa, eles me mandaram para Santos, para ajudar em uma greve. Passado um tempo, as minhas filhas se reuniram com a mãe e decidiram me dar o bilhete azul. Fui mandado embora de casa.

JC - O senhor se arrepende de alguma coisa que fez nessa caminhada como comunista?

Arcôncio - Não. O partido me ensinou muito. Como pensar, como analisar. Ele foi uma escola para mim. Eles são rígidos, mas é o sistema que obriga a ser assim. Mas a disciplina era necessária. Se não tivesse disciplina, não haveria organização.

JC - E hoje, como o senhor vê o Partido Comunista?

Arcôncio - O Partido Comunista no Brasil está bem. Ele tem boa representação política e está muito bem alicerçada. Naquela época era muito mais difícil, porque tínhamos que enfrentar reações, era uma pressão tremenda em cima da gente. Eram prisões e mais prisões e muitos morreram. O partido se fortaleceu, embora não tenha crescido. Porque para crescer não é fácil. É fácil para o PMDB, que tem tudo. Tem a maior parte das prefeituras, tem a maior parte dos vereadores. Mas por outro lado, não tem a disciplina, não tem a ordem. É só ver a situação do partido aqui na cidade.

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Perfil

Nome: Arcôncio Pereira da Silva

Idade: 92 anos

Local de nascimento: Viçosa (AL)

Mulher: Zuleide Julia de Souza (segundo casamento)

Filhas: Evani, Eni e Élida (do primeiro casamento)

Hobby: jogar baralho

Livro de cabeceira: “Capitães de Areia” e “Luiz Carlos Prestes – O Cavaleiro da Esperança”, ambos de Jorge Amado.

Filme predileto: Qualquer um que tenha ação

Estilo musical preferido: Nélson Gonçalves e forró

Time: Noroeste e Corinthians

Para quem dá nota 10: Antenor Dias Paz

Para quem dá nota 0: Mário, da Associação dos Aposentados