08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Mãe: sua ausência presente


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Quando a pessoa falece, escreveu Rubens Alves, terminado o velório e se volta para casa, é que se sente a presença da sua ausência. Com a morte, a falecida, em 1992, iniciou a longa trajetória que sua alma percorreria de encontro ao repouso eterno. A sua ausência não impediu que fatos ocorridos quando eu pesquisava para editar o livro “Falcão/Independência: nossa gente e nossa história”, aflorassem e com eles senti vestígios de sua presença.

No ensino primário fui aluno no 2º Grupo Escolar de Bauru, depois denominado “Luiz Castanho de Almeida”, nome de seu primeiro diretor. A escola, construída parte em alvenaria e, nos fundos do terreno, classes de madeira, localizava-se na Rua dos Andradas, na esquina com a rua Bernardino de Campos, quase defronte à Igreja de São Benedito. Depois foi transferida para um prédio maior nos altos da Rua Campos Salles. Foi nesse último que pesquisei.

Foi surpreendente a qualidade e preservação dos livros que me apresentaram, com registros a partir de 28 de maio de 1925, quando a vila dos ferroviários era jovem e dava seus primeiros passos urbanos. Ao folheá-los, fiquei emocionado com os nomes que foram aparecendo, pioneiros de meu bairro, cujos netos ou bisnetos cursaram comigo a mesma escola e, às vezes, a mesma classe. Eu mesmo, lá estava anotado a partir de 1947.

Narrei no livro editado que durante a pesquisa meu coração acelerou seus batimentos, quando encontrei um registro da freqüência e aproveitamento de Odette Azevedo, aluna do primeiro ano feminino C, em 1º de agosto de 1930 (tinha 13 anos). Ali estão registradas suas notas e sua promoção, coisa rara naquele tempo, pois somente 10% dos alunos, aproximadamente, iam para a turma seguinte. Sem conhecer os limites máximos e mínimos de avaliação naquela época, constatei que no exame oral de leitura minha mãe obteve 11; nos exames escritos 12 em cada uma das seguintes matérias: Linguagem, Aritmética, Geografia e História. Sua média final foi 11,8.

Como a maioria dos moradores da vila, minha mãe fez somente o primário. Casou com meu pai, açougueiro, sitiante e mais tarde político militante: foi vereador e prefeito. Foi ainda durante as investigações que eu fazia para elaborar o livro de minha vila natal, que sua presença mais uma vez se revelou. Ao compulsar a ata de fundação, do Centro Espírita “Maria Ribeiro”, desde 1943 localizado no quarteirão 1 da Rua Campos Salles e transferido depois, em anos mais recentes, para a rua Sabadino Scriptore, 3-39, verifiquei emocionado que nela constava o nome e a assinatura de minha mãe. Outro fato: na modernidade atual, quase sempre almoço num restaurante “de quilo”. E, às vezes, são oferecidas sobremesas. Quando servem sagu ou doce de leite volta à tona a presença de minha mãe, exímia doceira que tanto nos adoçou a vida. E nesse momento sua presença ausente de mim aproxima.

Irineu Azevedo Bastos