Cheguei aos 60 e tudo que fiz até agora foi do meu jeito. Vivi uma vida plena, viajei por cada estrada muito difícil... sou do tempo em que homem transava com mulher e não era fenômeno. Arrependimento tive alguns, mas nada demais...
Fiz o que tinha que fazer. Revi tudo, sem exceções, Talita e Thiago vieram na hora certa, procurei e procuro ser bom pai, às vezes não sou, sei disso! Planejei cada caminho. Dois casamentos não deram certo, na hora certa. Senti na pele o drama do desemprego, perseguições, tapinhas nas costas, mentiras, safadezas; sempre briguei; com patrões, porque não concordava com posições tomadas por eles, ou com relação às aulas, salários, disciplina, e sempre sobrava para o lado mais fraco: isto é, minha demissão. Agora nunca fiz aconchavo com esse ou aquele, sem rabo preso, olho todos os olhos.
Fui boi de piranha para muito político e figurão dessa cidade. Sei que sou antipatizado, às vezes excluídos por alguns dessa cidade, mas não abro mão daquilo que penso. Sei que mordi demais do que podia engolir e mesmo assim, quando havia dúvidas, engolia tudo e cuspia o resto. Encarei tudo - cinco anos desempregado. Nem um colega professor para conversar, nesses momentos todos somem, me mantive de pé, com ajuda do João Jabbour e do meu Curso Livre de Teatro.
Fiz do meu jeito. Amei, ri e chorei. Hoje as lágrimas secaram... a última vez foi em agosto do ano passado, nunca mais vi a pessoa que me fez chorar, que pena! Que saudades!... Mas aprendi a lição. Passei pela fase de processos, processos e processos, está tudo aí, professores que me processaram, sem direito de defesa, a Secretaria do Estado da Educação está aí e não me deixa mentir (habeas-data em 1988), ao longo dos anos fui esquecendo. Chego aos 60 anos amadurecido, calejado. Vivi uma vida plena. Viajei para cada estrada, Planejei cada caminho. O que é um homem? O que lhe resta? Se não é a si mesmo. Amar, falar aquilo que sente, a história mostra que assumi os riscos e fiz do meu jeito.
Paulo Neves