10 de julho de 2026
Articulistas

Muito além do voto


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Os partidos políticos já estão começando sua caminhada rumo às eleições. Notícias sobre essa movimentação conquistam espaço nos meios de comunicação. É o momento de refletirmos e escolhermos os nossos representantes na Câmara e prefeitura, mas não seria oportuno também refletirmos sobre o nosso real papel dentro desse sistema “democrático”? A palavra democracia nos remete ao conceito de governo do povo, onde escolhemos as pessoas que irão decidir por nós os rumos da nossa sociedade, segundo nossos próprios interesses. O meio pelo qual realizamos isso é o voto direto, e, no Brasil, obrigatório para a maioria. Este modelo de democracia foi criticado pelo filósofo suíço Rousseau, uma vez que um representante possui intenções pessoais como todos nós, e que nem sempre estão afinadas com às do povo; logo, não devemos nos submeter às leis por eles elaboradas. Para o filósofo, os homens devem atuar diretamente na política e este interesse pelo serviço público é a forma de manter a força do Estado.

Ora, o que vemos atualmente em nossa sociedade? Será que muitos não concordariam se eu dissesse que os interesses da população são colocados de lado em favor dos interesses particulares dos nossos representantes? Quantas foram as votações em que as vantagens dos detentores de cargos políticos foram multiplicadas enquanto projetos de leis de interesse coletivos estão entregues ao descaso? Quem eles representam?

Nós nos limitamos a dançar conforme a música, e, enquanto conquistamos o direito de reclamar dos políticos em razão de termos votado, não nos damos o direito de agir para mudar essa realidade. Quando votamos, ao invés de um ato de cidadania, alguns deixam na urna sua soberania de cidadãos. Entregamo-nos àqueles que prometem e abdicamos passivamente do direto de guiarmos nosso destino na sociedade. Não seria oportuno pensar se não estamos sendo individualistas ao invés de democráticos?

Se o interesse pelo serviço público estiver abaixo dos interesses individuais, o Estado se aproxima da ruína. Ora, geralmente estamos mais preocupados com nossa vida particular e nunca temos tempo para pensar nos outros, sendo culpa dos políticos as situações que afetam a todos, como a segurança pública, a falta de saneamento, ruas esburacadas, etc. Culpa dos políticos sim, mas culpa nossa também, que permitimos que isso aconteça. Infelizmente nossa educação foi orientada para nos preocuparmos apenas conosco e só enxergamos estes problemas quando somos afetados diretamente. Na nossa educação, o nosso próximo sempre foi um adversário, alguém com quem estamos concorrendo, e não vivendo em conjunto. Em razão disso, ignoramos os problemas alheios. Se meu vizinho quebra o carro em um buraco no asfalto eu lamento; se for comigo, eu reclamo, talvez através de uma reclamação verbal na mídia local. Ora, não teria mais resultado se, ao ver que aconteceu com meu vizinho, eu mobilizar todos os moradores do quarteirão para que se unissem em um ato público, uma ação concreta, exigindo uma resposta dos órgãos responsáveis, evitando assim que não aconteça o mesmo aos demais? Parece tão óbvio e ao mesmo tempo tão distante.

Não vamos nos deixar iludir achando que o voto é nossa única arma, mas vamos dar força a nossa iniciativa direta, nos organizando, nos associando, para, junto ao Estado, defendermos os interesses públicos. Precisamos fiscalizar os nossos representantes para que nos correspondam à altura. Vamos transcender o individualismo e nos colocar a serviço de nós mesmos, abandonando esta postura passiva diante dos problemas da sociedade, para nos tornarmos realmente soberanos. Concluo com uma frase do filósofo Epicuro: “A natureza criou-nos para a comunidade”.

O autor, Marco Antônio Planas Júnior, é colaborador de Opinião - e-mail: marcoplanasjr@yahoo.com.br