Jorge Luís da Silva, o Jorginho, que brilhou com as camisas de Portuguesa, Atlético-MG e Santos e encerrou sua carreira em 2002, esteve em Bauru na última semana exercendo sua nova função: coordenador das categorias de base do Palmeiras. No cargo há oito meses, Jorginho visitou a escolinha do Bauru Tênis Clube em busca de talentos para compor os times menores do Alviverde.
Como jogador, Jorginho teve uma carreira de 21 anos e passou por Portuguesa, onde foi revelado, Palmeiras, Paysandu, Coritiba, Juventude, Paulista, Atlético-MG, Santos, Paraná Clube, Portuguesa Santista, Fluminense, Rio Branco-SP, Avaí e Santo André.
Começou e jogando como ponta-direita, depois, em uma segunda fase de sua carreira, foi atuar na meia. Entre os títulos conquistados, destaca-se o bicampeonato da Copa Conmebol, em 1997, pelo Atlético-MG, e em 1998, pelo Santos, ambos sob o comando do técnico Émerson Leão.
Em Bauru, Jorginho falou ao Jornal da Cidade sobre seus tempos nos gramados e comentou a respeito de sua nova atividade. Leia a seguir os principais trechos da entrevista.
Jornal da Cidade - Você teve uma carreira de 21 anos e jogou em 14 clubes diferentes. Quais equipes e momentos marcaram sua trajetória?
Jorginho - Por todos os clubes onde passei, graças a Deus, tenho alguma coisa boa, seja com a torcida, ganhando alguma coisa ou com um grupo de atletas, que eram homens. Hoje tem que dar uma ênfase maior nisso para que você conquiste alguma coisa. Antigamente, a qualidade dos atletas, sejam como fossem, era bem maior. Hoje, se você não tiver um grupo de homens mesmo, que queiram, fica bem difícil. A qualidade é muito ruim. Tive uma passagem muito boa pela Portuguesa, no próprio Palmeiras tivemos um time muito bom, no Santos, no Atlético-MG, um time sensacional no Santo André, onde disputamos a A-2 e fizemos 24 partidas sem perder. No Paysandu, subimos para a Série A do Campeonato Brasileiro. No Juventude também. Então, foram bons times e uma boa passagem.
JC - Um episódio marcante, que envolve sua carreira, foi a final da Copa Conmebol, com o Atlético-MG, em 1997, contra o Lanús, da Argentina, onde o time brasileiro foi vítima de extrema violência no primeiro jogo, que venceu por 4 a 1, por parte de jogadores e torcedores argentinos. Como foi que começou a confusão?
Jorginho - O que ocorreu foi que acabou o jogo, dei um chute na bola para cima e o Ruggeri veio em cima e gerou uma confusão. Na hora de sairmos para o vestiário, veio um grupo de seguranças, dirigentes, sabe lá Deus o que era e a briga foi generalizada ali dentro. O Leão foi atacado, não sei se com pedra, mas acertaram no rosto e ele caiu (o treinador teve o maxilar fraturado). Nós o socorremos e levamos para o vestiário, quando foi o final da briga. Empatamos o jogo de volta em 1 a 1, mas não tinha mais nem gosto. Dos jogadores que arrumaram a briga, alguns foram expulsos. O Ruggeri ficou com medo de vir. Talvez seja por isso que o Leão tem o maior ódio de argentinos hoje. Por causa desta vagabundice que fizeram. Nem vale a pena ficar lembrando.
JC - E o Campeonato Brasileiro, que acabou de começar, quem larga como favorito em sua opinião?
Jorginho - Todos os 12 clubes grandes do Brasil. Os quatro de São Paulo (se esqueceu que o Corinthians está na Série B), os quatro do Rio e os dois de Minas e de Porto Alegre. São os 12 que sempre saem na frente. O restante vai ser coadjuvante, não tem jeito.
JC - Como é a função que você está exercendo hoje, após parar de jogar?
Jorginho - Comecei em 2005 treinando os juniores do Nacional da Capital. Depois, fiquei um ano trabalhando com o Oswaldo de Oliveira, como auxiliar, no Fluminense e Cruzeiro. Aí, o Oswaldo foi para o Japão e fiquei sozinho no União de Mogi, disputando a Série A-3, no ano passado, e ficamos em nono lugar. Depois, saí e fui convidado pelo Palmeiras para ser coordenador das categorias de base. Coordeno do time B até o sub-11 do Palmeiras. Todas as categorias passam por mim. Estamos fazendo um trabalho de sair para fazer algumas avaliações para captação de atletas. Infelizmente, hoje está muito difícil. A qualidade está muito pouca, os jogadores são muito ruins mesmo e temos de fazer isso para conseguir algum jogador de qualidade muito longe da Capital. Estou fazendo aqui, já fiz em Franca e devo sair fora de São Paulo e ir para outros estados. Já tenho agendado para Goiânia.
JC - Você está desenvolvendo o trabalho de base no Palmeiras. Qual a sua opinião sobre parcerias como a que o clube tem com a Traffic?
Jorginho - Não posso informar sobre isso, porque é só com o profissional. Procuro não me envolver, não tenho nada que dar palpite onde não mexo. Só espero que quem ganhe com isso sejam os atletas e o Palmeiras. São eles que dependem disso, todos os outros estão de pára-quedas.
JC - Você trabalha há oito meses nas categorias de base do Palmeiras. O que você pretende mudar na estrutura, já que o clube não tem muita tradição de revelar um grande número de valores?
Jorginho - Mudar ações que vêm há muitos anos é difícil. Você tenta implantar alguma coisa que eles possam aceitar. O Palmeiras não tem uma tradição de revelar muitos jogadores, apesar de na minha passagem por lá terem aparecido Galeano, Amaral, Tonhão, o próprio Marcos, apesar de que goleiro aparece com freqüência. (Revelação) Aparece, só que é esporádico. Hoje, seria ideal começar a aparecer alguns jogadores. Só que, no momento, realmente, o Palmeiras não tem grandes craques. Temos três ou quatro jogadores que acho que têm condições de participar do elenco do Palmeiras, principalmente neste momento, que é um momento de conquistas, que tem bons jogadores no Palmeiras. Isso vai facilitar para que eles possam ter um aprendizado, um pouco mais de experiência e ter uma credibilidade maior por parte do torcedor. O torcedor palmeirense é muito exigente. Se o Vanderlei (Luxemburgo, técnico do Palmeiras) conseguir fazer isso, e ele tem capacidade e essa característica de pegar sempre algum jogador mais jovem e começar a colocar junto com o time experiente, o Palmeiras pode começar a abrir uma nova forma de pensar. Só espero que, quando o Vanderlei sair e mudar tudo, essas idéias não mudem e possam permanecer para que o Palmeiras tenha atletas da categoria de base jogando no time de cima.
JC - Trabalhando com categorias de base, você tem encontrado muitas dificuldades com a mentalidade que impera hoje entre os garotos de conseguir sair para jogar no Exterior o mais breve possível e, muitas vezes, sem nem mesmo passar por um grande clube brasileiro?
Jorginho - Se ele (garoto) tiver a sorte de ter o passaporte europeu, está coberto de razão. Ele vai ter de olhar o umbigo dele, não tem jeito. Agora, os que não têm (passaporte), têm que tentar o clube. Normalmente, aqueles que têm o passaporte, Deus também é generoso e nem sempre dá muita qualidade a eles. Os que não têm (passaporte) é que realmente têm (qualidade). Essas pessoas que saem, normalmente, são bons lá.
Quando eles vêm para cá, que o sonho deles é voltar e jogar, eles não conseguem. Tem muitos atletas bons aqui, e futebol é difícil, que vão para lá e não dão certo. Tem outros que você julga medíocres aqui e vão lá e são ídolos. Porque tem suas características, suas maneiras e o atleta que se adaptar a isso, indiferente da qualidade dele, consegue êxito. Não só aqui, mas lá também. Lá, talvez com um pouco mais de facilidade.
Aqui tem que ter muita qualidade, porque o torcedor é muito exigente, muito chato, porque viu grandes jogadores. Lá, não. Lá, qualquer um que tenha um pouquinho mais de qualidade tem esta facilidade. Mas, em compensação, tem que se adaptar a muitas coisas que aqui, no Brasil, não tem: a frieza do europeu, o clima frio, a alimentação diferente, a exigência de profissionalismo, que é muito maior do que aqui. É sempre mais difícil.
Então, o fato de você não conseguir atletas de qualidade não é porque eles estão saindo ou porque tem empresário ou deixa de ter. É porque realmente não tem. Em São Paulo, por exemplo, você não tem lugar onde as crianças possam brincar. Hoje, o garoto quando nasce, um ano ou dois, começa a entrar em uma escola de línguas, quem tem condição. Então, o garoto não brinca mais.
Ele brinca de estudar, de nadar, de fazer vôlei, basquete. O pouco tempo que ele teria de lazer, ele não tem mais lugar e opção. Não tem mais a terra para brincar. Quando vem para um clube, tem um cara chato, que é professor e quer colocar um monte de regras. Quer dizer, não deixa o garoto crescer, não deixa ele criar, não deixa ele ter criatividade. Como é que você vai querer que alguém pense com seus próprios neurônios, se tem alguém pensando por ele?
Por isso que tem poucos jogadores hoje com qualidade. Onde você poderia arrumar (jogador), que é onde as crianças brincam, nos bairros da periferia, é complicado porque a violência está muito grande. Termina não tendo lugar e a criança termina sendo uma criança robotizada. Isso faz com que tenha pouca qualidade e tenha de jogar só com a força. Esse é um dos problemas, não o empresário. Com empresário ou não, ele não joga. Se acertou, bem, se ele não acertou, segue a vida dele. Jogadores nunca vão ser insubstituíveis.