09 de julho de 2026
Bairros

Frio acentua diferenças sociais

Wagner Carvalho
| Tempo de leitura: 3 min

A pouco mais de um mês para o início do inverno, que começa oficialmente no dia 21 de junho, muita gente já foi obrigada a retirar cobertas e agasalhos dos armários. Mas embora a queda na temperatura atinja a todos, são as pessoas mais pobres que sentem de forma acentuada as alterações no termômetro.

É que, por viveram em bairros desprovidos de infra-estrutura adequada e não terem condições de comprar agasalhos e cobertores, essas famílias de baixa renda têm chances reduzidas de amenizar os efeitos da estação. Como resultado, o frio se torna um problema e seus efeitos podem causar até a morte.

Até agora a temperatura mais baixa registrada em Bauru foi de 9,8 graus, mas, de acordo com o Instituto de Pesquisas Meteorológicas da Universidade Estadual Paulista (Ipmet/Unesp) de Bauru, as temperaturas registradas no inverno devem cair ainda mais.

A notícia deixa de prontidão pelo menos 15% da população de Bauru. É dentro desse percentual que está a população em situação de vulnerabilidade social, de acordo com dados da Secretaria de Bem-Estar Social de Bauru (Sebes).

Em números brutos, o índice representa cerca de 50 mil bauruenses, que precisam do auxílio de outras pessoas ou do Poder Público para sobreviver. É com base neles que órgãos públicos, entidades assistenciais e sociedade civil pregam uma mudança comportamental, voltada na atenção ao próximo.

Dentro desse contexto estão ações como campanhas de arrecadação de agasalhos, distribuição de sopas e remédios. Realizadas pelas entidades assistenciais, igrejas ou grupos de amigos, essas ações ajudam e muito a minimizar o sofrimento dos que mais necessitam.

A campanha municipal de arrecadação de agasalhos, a Aquece Bauru, lançada na última semana, pretende atingir 70 bairros, a maior parte deles afastada do Centro da cidade e onde se encontram as pessoas que mais sofrem os efeitos do frio. “São em bairros como o Ferradura Mirim, Jardim Tangarás ou Jardim Nicéia que a população mais necessitada se encontra concentrada”, explica Egli Muniz, titular da Sebes.

Marco Antônio de Oliveira, 45 anos, é uma dessas pessoas que contam com a ajuda de outros para enfrentar as baixas temperatura. Morador de um barraco feito de madeira localizado na favela do Jardim Europa, ele sente os efeitos do frio e das chuvas.

Com a queda na temperatura registrada nos últimos dias, Oliveira abriu mão do único cobertor surrado que possui em casa para a esposa, que se encontrava grávida. “É difícil, a gente não tem cobertor ou uma blusa de frio, o corpo chega a doer durante a madrugada”, conta ele, que se aquece ao lado da esposa próximo da fogueira, feita de gravetos, no quintal.

Aquecer famílias como a de Oliveira com cobertores é um dos objetivos da campanha realizada pela Sebes. Neste ano, a meta é coletar 20 mil unidades, número reduzido quando se pesa que 50 mil pessoas passam necessidades em Bauru.

É o caso de Ana Maria Marques, que vive no Jardim Santa Filomena em um barraco, há 13 anos. “A gente passa muito frio, ninguém dá nada para a gente, campanha do agasalho aqui só pelo rádio”, reclama. Oliveira também afirma que a ajuda vem dos vizinhos que dividem o pouco que tem com ela ou do que consegue ganhar pedindo no bairro vizinho.

Saúde

Mas a entrada do inverno não traz apenas o frio. O clima mais seco e a baixa umidade também deixam suas marcas, sendo responsáveis pelo surgimento de diversas doenças respiratórias, como gripes, resfriados e rinites.

Essas doenças atingem principalmente as crianças e pessoas idosas, cujos sistemas de defesa do corpo são mais frágeis. Como resultado, o sistema de saúde do município fica ainda mais sobrecarregado, expondo uma faceta nada charmosa do inverno e que acentua, na verdade, as diferenças sociais da sociedade.