São nos bairros mais afastados e desprovidos de um mínimo de infra-estrutura que a população mais carente se encontra em maior número. Reclamando por atenção do poder público, essas pessoas se viram como podem, inclusive para se proteger do inverno.
Dos 30 anos de vida, Eva Maria Rodrigues Ferreira vive há 13 em um barraco construído embaixo do Viaduto Antônio Eufrásio de Toledo, que dá acesso à Vila Independência. Hoje, sozinha no local, ela conta que guarda veículos pelas ruas para conseguir ganhar algum dinheiro para comprar comida e roupas.
“Já morou aqui comigo minha mãe e dois irmãos meus. Minha mãe já faleceu e os irmãos arrumaram emprego e saíram daqui”, conta. Com poucas roupas e vivendo a cerca de três metros de um rio onde lixo e esgoto são encontrados em maior quantidade do que a própria água, Ferreira conta que vive esquecida.
“Ninguém vem aqui perguntar se a gente tá vivo ou se precisa de alguma coisa, sou eu e Deus”, diz Ferreira, que para fugir do frio dessa época do ano conta com poucas roupas e muita madeira para acender fogueiras.
Sem os sete filhos ao seu lado, cuja guarda perdeu após envolvimento com drogas e bebida, hoje, religiosa e freqüentadora de uma igreja evangélica, Ferreira afirma que as necessidades continuam. “Eu confio em Deus, e tenho certeza que ele não vai mandar um frio que eu não possa suportar”, acredita.
No Ferradura Mirim, José Nicolau, 50 anos, também vive em estado precário. Com a esposa e dois filhos, conta que enfrenta o frio como pode. “Quando chega à noite, quando o frio castiga mais, a gente vai deitar e se cobre com papelão ou que tiver para enganar a temperatura baixa”, diz.
Antes de dormir, Nicolau conta que a família geralmente toma uma sopa de arroz bem quente, o que ajuda a driblar o frio. A família diz estar cansada de receber a visita das pessoas que prometem fazer algo por eles, mas que nada cumprem.
Marco Antônio de Oliveira, 45 anos, que mora próxima da favela do Jardim Nova Europa também engrossa o coro dos demais moradores. “Aqui quem olha por nós é só Deus e as pessoas de bom coração que moram aqui perto”, conclui.