10 de julho de 2026
Geral

Alteração na distribuição de dinheiro ameaça Sesc, Senac, Senai e Sesi

Lígia Ligabue
| Tempo de leitura: 4 min

Garantia de educação profissionalizante acessível e de qualidade, além de oferta de lazer, cultura e entretenimento de primeira. Tudo isso está ameaçado por uma proposta do Governo Federal, de mudança na forma de distribuição de dinheiro. Caso aprovada, poderá interferir diretamente na qualidade e abrangência dos cursos e eventos do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), do Serviço Social da Indústria (Sesi), do Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac) e do Serviço Social do Comércio (Sesc) - o chamado Sistema “S”. Em Bauru, isso significaria a redução da programação do Sesc e na diminuição de investimento nos materiais e laboratórios do Senac, por exemplo.

A proposta é tão polêmica, que logo que foi formalizada pelo governo, gerou uma forte e rápida reação das confederações e direções regionais do Sistema S. Para o gerente do Senac de Bauru, José Roberto Bottaro, a infra-estrutura dos cursos e eventos oferecidos na unidade, localizada no Centro, sofrerá o maior impacto caso a proposta seja implementada.

“Hoje temos um investimento significativo em atualização de laboratórios, material didático, equipamentos de ponta, biblioteca e capacitação pedagógica de professores”, enumera o gerente.

Atualmente, 980 alunos estão inscritos nos cursos profissionalizantes do Senac, em saúde, segurança do trabalho, cosmética, moda, entre outros. “Temos 96 alunos em cursos de aperfeiçoamento profissional, que é extremamente significativo para o mercado”, pontua. Ele também destaca a função social da unidade, que mantém programas como o Jovem Aprendiz e outros para pessoas de baixa renda. “Além disso, 30% dos nossos alunos recebem algum tipo de bolsa”, calcula Bottaro.

Ele também evidencia números divulgados pela regional São Paulo, que apontam que, enquanto cursos de educação profissionalizante do governo respondem por 6,7% do total ofertado, os do Sistema S representam 37,6%. Porém, ele acredita no diálogo. “Creio que o assunto ainda deve ser discutido e aposto num consenso”, diz.

Lília Márcia Barra, gerente do Sesc de Bauru, avalia que o prejuízo será muito grande para a comunidade se a proposta for aprovada. “Trabalhamos com orçamento fechado e temos custos altos de manutenção, como energia elétrica, segurança, que não temos como alterar. O que mudaria seria a programação, que teria um terço de seu orçamento reduzido. Em termos práticos, teríamos que rearranjar toda a programação”, avalia.

Atualmente, cerca de 54 mil pessoas estão matriculadas no Sesc de Bauru e aptas a utilizar todas as dependências da unidade localizada na Vila Cardia, que é palco dos principais eventos culturais da cidade. Mesmo com a proposta do governo ainda longe de ser concretizada, a gerente garante que a marca registrada do Sesc será mantida. “Ainda não dá para pontuar o que será cortado, mas a qualidade do serviço não pode se submeter a isso, senão perde a característica do serviço”, afirma.

A gerente rebate o argumento do governo, que considera o Sesc um serviço somente social. “Nós temos uma visão ampla da educação. E até receber a população com qualidade é uma forma de educar. Um show, pode ensinar e mudar a vida de uma pessoa”, pondera. Para ela, em Bauru e nos municípios onde existem unidades do Sesc, o impacto será grande. “E em Bauru, a população se apropria do espaço. Toda a cidade passa aqui e temos muito orgulho disso”, destaca.

Em Bauru, o Sistema S ainda é formado pelo Senai e Sesi. A unidade do Sesi, que tem alunos premiados em Olimpíadas de Conhecimento, oferece cursos em administração, eletroeletrônica, gráfico, informática, mecânica automotiva, entre outros. Além de laboratórios avançados, como o Núcleo de Tecnologia Gráfica e o do Núcleo da Construção Civil.

O Sesi investe na educação do trabalhador e seus dependentes, oferecendo educação de base, para a economia, para a saúde, familiar, moral e cívica e comunitária. Além de oferecer assistência social nas áreas da saúde, alimentação, lazer, esporte e cultura.

Serviço:

O Sesc lidera um abaixo-assinado on-line contra a proposta do governo. Para participar, basta acessar a página do Sesc na Internet, no endereço www.sescsp.org.br

A proposta

A idéia de mexer na forma como é feita a distribuição do dinheiro para o Sistema S é do ministro da Educação, Fernando Haddad. Alegando que as entidades investem apenas em cursos de curta duração, que não divulgam suas prestações de contas e que os cursos, muitos pagos, acabam sendo elitistas, o ministro propõe a alteração do modelo, adotado há 60 anos.

Atualmente, as empresas recolhem 2,5% sobre a folha de pagamento e repassam para confederações nacionais, que financiam o Sistema S nos Estados. Desse percentual, 1,5% é destinado a serviços sociais e 1% a serviços de aprendizagem. Para aumentar a oferta de cursos profissionalizantes no ensino médio, a proposta do Ministério da Educação é inverter a porcentagem e criar o Fundo Nacional de Formação Técnica e Profissional (Funtep) para distribuir os recursos. Ou seja, as entidades perderão a autonomia conquistada na década de 40.