Preciso confessar. É tudo culpa minha, exclusivamente minha. Sou culpado por esta situação que me entristece e que me faz sentir um vazio no peito, no espaço destinado à emoção. Não tenho sequer cúmplices, que possam dividir comigo o peso desta responsabilidade. Tenho que encarar os fatos solitariamente.
Meu crime, se desejam saber, faz mais mal a mim do que a qualquer outra pessoa. É o tipo de erro burro, porque nenhuma vantagem tiro dele, nenhum benefício, por mais escuso que fosse. Somente tristeza. Somente a certeza de que, mesmo que eu me penitencie e não mais incida nesta insanidade, o que passou não volta mais. Este, meus caros, é a pior das penas. Não há cadeia, não há proibições, não há multas que cheguem próximo à intensidade do castigo de saber que nada que você possa fazer irá trazer de volta aqueles momentos.
Acreditem, se é que podem acreditar num pecador, que fui chamado à consciência por algo inexplicável. Por intervenção divina ou por meu próprio espírito, a verdade é que tudo se revelou numa série de sonhos. Noite após noite, durante os últimos três dias. Personagens diferentes, ambientes diferentes, mas a mesma mensagem, o mesmo aviso, o mesmo alerta. Os atores de meus sonhos são todos conhecidos. Aliás, mais do que conhecidos. Quem está habitando meu inconsciente e agitando meu repouso, perturbando minha até então tranqüilidade, são meus Amigos. Todos eles. Não aquelas pessoas que passam por nossas vidas, por conta de compromissos pessoais ou durante uma fase de nossa existência. Ali estão os meus Amigos. Meus bons, velhos, queridos e inesquecíveis Amigos!
Meu crime, hediondo, imperdoável, foi ter me afastado dos meus Amigos, com A maiúsculo! Foi ter achado que, por me quererem bem, entenderiam meu afastamento e estariam, quando eu precisasse, de braços abertos para me receber. Tenho certeza que todos, sem exceção, assim estão, que não me negarão, jamais, o carinho e o acolhimento. Por isso a minha dor, a minha culpa. Devo desfrutar destas amizades agora, dividir o riso, contar e escutar os sonhos.
Desde garoto fiz mais do que colegas. Os primeiros Amigos que tive e que até hoje assim permanecem foram do meu time de basquete. Vitor, Mauricio, Flávio, Hudson, Fernando, João Lúcio, Ivan, Gustavo, Ednilton, Cássio, Arthur, Nelson e tantos outros. Alguns, por conta de minha imaturidade e da falta de inteligência, se afastaram prematuramente, como o José Alfredo e o Demétrius. Outros se tornaram mais do que Amigos, sendo os irmãos que não tive: Luis Francisco e Lauton. Depois veio a Faculdade e a vida profissional e novos Amigos se juntaram aos anteriores: Trench, Cláudio, Caio, Sérgio, Silvio, Alberto... Desculpem se não nominei todos. Faltaria espaço!
Quase todos se casaram, muitos já tiveram filhos. Eu também casei, eu também tive filhas. Mas não conheço os filhos de meus Amigos e suas esposas pouco conhecem minha família. Os nossos cabelos estão branqueando ou desaparecendo, mal consigo alcançar o aro da tabela. O tempo passa e somente agora me dei conta. Não, não estou morrendo e isto não é uma carta-despedida. Estou nascendo e esta é uma carta de boas vindas! Espero que meus Amigos e suas famílias voltem a fazer parte da minha vida! Peço perdão a cada um de vocês por minha ausência. E digo, de público, o que pretendo fazer pessoalmente com cada um: eu amo vocês, meus Amigos!
Conrado Rodrigues Segalla