10 de julho de 2026
Polícia

Duas tentativas consecutivas de linchamento: Qual motivo?

Luciana La Fortezza
| Tempo de leitura: 2 min

Bauru registrou ontem o segundo caso consecutivo de tentativa de linchamento. Anteontem, um rapaz acusado de ter estuprado uma garota de 14 anos foi violentamente agredido por populares. Nem 24 horas depois, foi a vez de um servidor público acusado de tentar furtar o som de um carro passar pela mesma situação. Ambos foram amparados pela polícia, que também impede esse tipo de violência contra Alexandre Nardoni e sua esposa Anna Carolina Jatobá, presos por conta da morte de Isabella.

O casal, no entanto, já foi julgado e condenado pela opinião pública, que se incumbiu de seu linchamento moral. Nos bastidores de tantas manifestações de ódio coletivo, está uma série de circunstâncias que favoreceriam a “justiça com as próprias mãos”. Entre elas, o sistema capitalista responsável por insuflar uma infinidades de desejos na mesma proporção que impõe privações.

A globalização também figura como suporte para o comportamento, cada vez mais contumaz não só no Brasil. Ela facilita informações sobre casos de violência que revoltam a sociedade, ávida por descarregar sua raiva no primeiro flagrado pela frente cometendo um ato ilícito. Permeia a discussão ainda a desconfiança e a fragilidade das estruturas do Estado. “A explicação clássica que se dá para esse tipo de situação é uma sociedade que não confia nas estruturas do Estado”, reitera o antropólogo Cláudio Bertolli Filho.

Mas para ele, o processo não pára por aí. “Claro está que um estupro ou o assassinato da menina catalisa angústias não só do homem e da sociedade em relação ao Estado, mas da própria existência. É horrível matar uma menina de 6 anos, é horrível estuprar uma garota de 14 anos. Juntam-se várias angústias e frustrações em relação à vida, à ética em viver em sociedade, em relação ao indivíduo e ao Estado. Junta tudo. A gente não pode setorizar as relações sociais”, explica.

A prática de linchamento também pode ter relação com um eventual instinto humano, violento. A hipótese foi confirmada por Bertolli que citou o pensador Claude Lévi-Strauss ao comentar sobre a existência de uma corrente teórica que defende algo semelhante. Para ela, as regras sociais são entendidas como estratégias de contenção de relações espontâneas e naturais.

“Existiria um momento de tensão em que essas regras seriam muito frágeis para conter o indivíduo. Os psicólogos, dependendo da corrente, não acreditam nessa questão”, esclarece. Mas tem quem defenda tratar-se de uma função natural do indivíduo a tendência à violência. Para tanto, basta apenas um motivo. “Eu sou injustiçado pelo meu patrão, que me humilha e paga mal, então vou dar uma porrada no Nardoni”, conclui o antropólogo.