07 de julho de 2026
Regional

Índios mantêm reféns em aldeia

Por Ricardo Santana | Colaborou Marcelo de Souza
| Tempo de leitura: 4 min

Avaí - O administrador da Regional de Bauru da Fundação Nacional do Índio (Funai), Arnor Gomes de Oliveira, juntamente com mais três funcionários do órgão federal, foram mantidos reféns, ontem, na aldeia Teraguá, na Reserva Indígena de Araribá, em Avaí (39 quilômetros de Bauru). Os índios só aceitavam libertar os reféns se a presidência do órgão recuasse da decisão de transferir para Itanhaém, Litoral Paulista, a Administração Executiva Regional (AER), até então instalada em Bauru. As lideranças também reivindicam o direito de indicar um novo administrador para a AER. Eles indicam para o cargo o economista Dionísio Vargas. A Polícia Militar (PM) acompanhou o impasse posicionada na área externa à reserva, que é área federal.

Até o fechamento desta edição do JC, Oliveira e os funcionários Mário Camilo, Ranolfo Camilo e Edenilson Sebastião eram mantidos reféns na aldeia Tereguá.

De acordo com o cacique Anildo Lulu, líder do movimento, as quatro pessoas não serão liberadas enquanto a direção da Funai em Brasília não acatar as reivindicações dos indígenas.

Ele comentou que um fax foi enviado por Brasília, porém, não contemplava as exigências, por isso os funcionários seriam mantidos na aldeia.O impasse começou na manhã de ontem, quando cerca de 200 índios bloquearam por aproximadamente três horas e meia a rodovia Comandante João Ribeiro de Barros (SP-294), em Duartina, na altura do quilômetro 380, próximo à reserva. Ninguém passava sem autorização dos indígenas. O transporte de córneas para transplante, por exemplo, só foi feito com o consentimento do cacique. Motoristas que tinham hora marcada para entregar cargas ficaram pelo caminho até que a pista fosse liberada.

Conforme o cacique Anildo Lulu, as aldeias querem a indicação do economista Dionísio Vargas, que, segundo o cacique, seria a pessoa mais qualificada para assumir o cargo de administrador. “Desde junho do ano passado nós estamos nessa batalha e não temos resposta. A Funai não tem respeito pelas lideranças, pelos caciques, pelo nosso povo. Se nós somos representantes de um povo, exigimos respeito. Que eles nos respeitem”, disse.

De acordo com o cacique, já foram feitos vários documentos, todos enganosos, já que nenhum acordo assinado foi cumprido. O cacique salientou ainda que foi muito difícil tomar a decisão de bloquear a rodovia, mas foi necessário porque era a única forma de forçar a Funai a negociar e alertar a sociedade para o que está acontecendo com os índios da região. Lulu afirmou ainda que a Funai está tentando acabar com a cultura do povo indígena, forçando-os a abandonar a família para trabalhar como bóia-fria.

Oliveira afirmou, pela manhã, que a Regional de Bauru iria mesmo ser transferida para Itanhaém, no Litoral Paulista. Porém seria mantido um escritório em Bauru, para não deixar os índios da região desamparados. “Os índios não serão abandonados”, afirmou, destacando que não poderia fazer mais nada, nem assumir compromisso.

Bloqueio e confusão

A intolerância de um cidadão quase transforma uma manifestação pacífica em pancadaria. Dirigindo um Peugeot com placas de Duartina, um senhor tentou furar o bloqueio e foi contido pelos policiais. No entanto, ao invés de dar meia volta e fazer o desvio como os outros motoristas, começou a xingar os índios de vagabundos. “Eu sou vizinho deles há 50 anos, é um bando de vagabundos”, gritou. As ofensas foram ouvidas pelos índios, que partiram para cima do carro batendo com pedaços de madeira. A situação só não piorou porque a Polícia Militar conseguiu conter os ânimos.

O Policiamento Rodoviário tentou intervir e negociar para que os índios liberassem a pista, mas somente ambulâncias podiam passar. Os índios liberaram ainda um carro de funerária e o veículo que transportava o almoço dos presos da cadeia de Avaí, para evitar uma rebelião por falta de comida, que poderia acontecer.

Como os índios estavam irredutíveis quanto à liberação da pista, o Policiamento Rodoviário resolveu fazer desvios para que não causassem mais congestionamento. A aglomeração de veículos chegou a dois quilômetros em cada sentido da rodovia. Depois que a polícia começou a orientar os motoristas, eles foram saindo aos poucos e dando a volta por vias paralelas, aumentando o percurso em até 30 quilômetros.

A condição para liberar a pista era a presença de um representante da Funai na aldeia. Oliveira chegou ao local por volta do meio-dia, com a orientação do diretor Aloysio Guapindaia, de se comprometer a formar uma comissão com três representantes dos índios e três servidores da Funai, sendo dois de Bauru e um de Brasília, o que foi prontamente rechaçado pelos índios.

Após muita conversa e negociação, o funcionário da Funai foi para a aldeia, onde ficou impedido de sair, juntamente com mais três funcionários do órgão federal.