07 de julho de 2026
Saúde

Toques e retoques

Consultoria: Daniela Hueb
| Tempo de leitura: 4 min

Comer com culpa engorda?

Prezado leitor,

Até algum tempo atrás se acreditava que o estresse era usado por várias pessoas como uma bela desculpa para justificar por que ela engordava. Pois é, as pesquisas evoluem, mesmo sem contar com a tecnologia, mas com a mente de pesquisadores preparados, e descobriram que o estresse realmente engorda. Incrível, não? É claro que você não pode continuar a utilizá-lo como uma muleta para se acomodar com o sobrepeso ou com a obesidade, mas sim como um dos fatores reais que necessita de tratamento.

O que é estresse?

O estresse é um sinônimo para tensão e agitação. Em fisiologia, ou em condições de saúde, significa uma situação essencial à vida, ou seja, uma reação não específica do organismo a qualquer exigência. Ele começa a ser patológico quando ultrapassa uma faixa de normalidade além da essencial à sobrevivência.

Na pré-história, e também na vida animal dos dias de hoje, o estresse se traduzia muito bem quando o homem e os animais se encontravam naquela situação de matar (atacar) ou morrer (fugir). Então, quando um homem não conseguia caçar e comer para sobreviver naquele dia, ele automaticamente tinha um potencial para estocar o alimento consumido em dias posteriores como prevenção à escassez alimentar. Seria mero acaso ou coincidência esta condição nos perseguir até os dias de hoje?

Hoje, não nos estressamos por literalmente não conseguir caçar para comer. A nossa caça atual pela sobrevivência é diferente, é mais intelectual ou até braçal, dependendo da profissão de cada um. Estressamos por não cumprir metas no trabalho, pelo sucesso da concorrência, pelo som das buzinas no trânsito, pela infeliz dependência de pessoas de competência limitada, pelo mau desempenho sexual, pelo desprezo social, pelo relacionamento estremecido com amigos e ou familiares, pela carência afetiva e desamparo, pelo mau comportamento dos filhos e, além de vários outros, até por estarmos acima do peso.

Quando estamos acima do peso, estressamos por vergonha de entrar numa loja para comprar vestimenta de numeração superior à utilizada habitualmente, pelo preconceito contra os obesos, por não haver poltrona adequada tanto em ônibus quanto em aviões, pelos comentários e apelidos jocosos, por ser mais conhecido por ser gordinho, por não conseguir descansar e dormir devido à apnéia do sono, pelas várias doenças que tem a obesidade como base (diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares, resistência insulínica), enfim, por outras várias situações.

Por que engordamos?

O estresse por si só não nos faz engordar. O que nos faz engordar é quando ele se pronuncia excessivamente, provocando uma pane interna no nosso sistema orgânico. Quando estamos demasiadamente estressados, as glândulas supra-renais, aquelas situadas sobre os rins, liberam os principais hormônios do estresse: a adrenalina e o cortisol, para nos preparar para lutar ou fugir.

Quanto mais estressados estamos, mais aumenta a produção daqueles hormônios, o metabolismo, a respiração e os batimentos cardíacos aceleram, sentimos mais fome por alimentos ricos em carboidratos e gorduras não saudáveis (dão energia mais rápido), aumenta o nível de glicose no sangue e a produção de insulina pelo pâncreas, o intestino e a bexiga prendem, provocando inchaço e acúmulo de gordura.

Na pré-história não engordávamos facilmente porque corríamos ou lutávamos, gastando este “boom” de energia proporcionada pelo estresse. Nos dias de hoje estressamos e não gastamos esta energia extra, por isso engordamos mais facilmente.

Os alimentos não podem ser encarados como nossos inimigos, pois para algumas pessoas somente o fato de se alimentar gera um estresse devido ao medo de engordar. Portanto, um simples e prazeroso jantar torna-se um momento de grande tensão. Assim não são as calorias que nos engordam, e sim o estresse sentido sobre elas.

Isso não significa que devemos apenas relaxar e consumir qualquer alimento que emagreceremos. Alguns alimentos colaboram para acelerar o metabolismo, como grãos e cereais integrais, peixes e carnes magras, gorduras insaturadas e alimentos fibrosos, como frutas, verduras e legumes.

Outros colaboram para desacelerar o metabolismo, como gorduras animais (as saturadas), leite e derivados, alimentos industrializados e que contenham gordura trans, como pão francês, biscoitos, doces, massas e açúcares, entre outros.

O controle do estresse é apenas um dos fatores que colabora no emagrecimento. Além deste fator, é importante ter controle do apetite, alimentar-se corretamente para combater os radicais livres e o processo inflamatório intenso, praticar atividade física moderada e ter equilíbrio e sintonia dos vários hormônios, inclusive os tireoidianos.

Não se acomode com a falta de tempo. Se você não encontrar tempo hoje para cuidar da sua saúde, precisará encontrar tempo amanhã para tratar da sua doença. Pense melhor quando o assunto é boa saúde, pois você depende dela pra tudo, inclusive para trabalhar, e não espere para valorizá-la apenas quando ela estiver ameaçada. Isso gerará mais estresse e você engordará mais ainda.

Um grande abraço e até o próximo domingo.

Daniela Hueb

Médica, CRM-SP 96.027

e-mail:danielahueb@jcnet.com.br