Quem consultar o perfil do eleitorado bauruense no “site” do Tribunal Superior Eleitoral perceberá que, em nosso município, a proporção de eleitores filiados a partidos políticos, assim como a de eleitores entre 16 e 18 anos (idade em que o alistamento eleitoral e o voto são facultativos), vêm diminuindo ao longo dos anos.
Ao mesmo tempo em que isso acontece, há um aumento na proporção das abstenções e dos votos brancos e nulos.
É possível concluir, a partir das informações supra, que: a) os jovens estão perdendo o interesse pelo alistamento eleitoral facultativo, passando a ter vida política apenas quando a medida se torna obrigatória aos 18 anos; b) o interesse dos eleitores pela vida partidária, que já é pequeno no Brasil, está se tornando ainda menor, em razão da ausência de estímulo à participação política e da perda de credibilidade dos partidos em face das constantes controvérsias envolvendo a confiabilidade e seriedade dessas instituições, que são fundamentais para a democracia; c) a opção por não manifestar opinião nas urnas está crescendo entre os eleitores (abstenções, votos brancos e nulos).
Quais são as causas desse fenômeno que, infelizmente, não é exclusivo de Bauru, mas também observado em um sem número de cidades brasileiras?
Esopo, um fabulista e moralista grego do século 6 a.C, disse, já naquela época, que “nós enforcamos os ladrõezinhos e indicamos os grandes ladrões para cargos públicos”. Os constantes escândalos políticos que, diariamente, a todos barbarizam nos noticiários de TV, deixam claro que a frase de Esopo continua em perfeita sintonia com a realidade social.
Seria essa a gênese da repulsa que a política causa no indivíduo comum, que desiste de participar, desiste de opinar e prefere simplesmente ficar alheio?
O fato é que o prejuízo causado pelos grandes ladrões aos quais Esopo se referia vai muito além do vil metal que subtraem do Estado, pois, com seus exemplos, matam a esperança do povo, menosprezam a justiça, ridicularizam a fé nas instituições, humilham a nação e empodrecem a auto-estima dos brasileiros, que se sentem impotentes ante o triunfo diário da improbidade: aos pequenos, o rigor das leis que lhes são incompreensíveis e desconhecidas; aos grandes, os foros privilegiados e as sínicas presunções de inocência garantidas pelo surreal ordenamento jurídico que construíram em causa própria.
Ante a improbidade, o primeiro impulso das pessoas é agir em desfavor do que é errado, e, assim, clamam por justiça. Nada obstante, ela raramente aparece e nunca se faz compreender pelas massas. A reação natural do povo, então, é se distanciar do que é desagradável, do que repulsa o senso ético e fere o mais básico sentimento de respeito à humanidade. Esse é um mecanismo psicológico instintivo. Tem por fim proteger o indivíduo do mal-estar decorrente do verdadeiro avilte moral que se exibe diariamente nos jornais. Provas desse distanciamento são os altíssimos números das abstenções eleitorais e dos votos nulos e brancos, assim como o desinteresse político que campeia entre os eleitores de todas as idades e classes sociais.
O grande ladrão não rouba apenas metais, rouba o espírito cívico e o sentimento democrático da nação.
O indivíduo, para não se ver como eterno perdedor, simplesmente se afasta, torna-se alheio, inerte: prefere desconhecer para não sofrer.
O problema é que, como já foi dito por Edmund Burke, “para que o mal triunfe, basta que os bons não façam nada”, e é por isso que a situação nunca deixa de se agravar: a improbidade afasta os bons da política e, assim, os maus se sentem menos vigiados, menos hostilizados e estimulados a serem mais ímprobos. A improbidade, associada à impunidade, são monstros que produzem o próprio alimento: a inércia dos bons.
Fica, então, o apelo de quem se nega a crer na morte da esperança: que não cheguemos ao fim da participação política, pois política não é “politicagem”; que não sejamos um povo sem vida partidária, pois partidos não são, necessariamente, balcões de negociatas casuísticas e pessoais; que não deixemos de crer nas instituições, pois elas não são meros órgãos de condescendência criminosa; e, finalmente, que não esqueçamos a máxima de Platão: “O castigo dos bons que não fazem política é serem governados pelos maus”.
O autor, Luciano Olavo da Silva, é analista judiciário, especialista em direito eleitoral e chefe de Cartório da 23.ª Zona Eleitoral - e-mail:luciano2232@terra.com.br