09 de julho de 2026
Auto Mercado

Dr. Automóvel: Superaquecimento do motor

Consultoria: Marcos Serra Negra Camerini*
| Tempo de leitura: 4 min

Todos já ouviram falar ou já passaram por uma situação muito desagradável: o motor ferveu! Mas o que é isso e como ocorre?

Obviamente não é o motor quem ferveu e sim o líquido de arrefecimento, popularmente conhecido como a água do radiador. Sabe-se que em condições normais de temperatura e pressão a água ferve a 100oC, mas dentro do motor as condições são outras. Como o circuito está selado, funciona como uma panela de pressão fazendo com que a temperatura de ebulição aumente em função do aumento da pressão do sistema. Além disso, são adicionados aditivos a base de etileno glicol para evitar o congelamento e aumentar a temperatura de ebulição, e desta forma o líquido de arrefecimento chega a suportar cerca de 120oC sem ferver. Como o motor é uma máquina térmica, quanto mais quente trabalhar mais eficiente será, daí esta preocupação com o fluido. Mas tudo tem limites e se a temperatura for alta demais, algumas partes móveis poderão se dilatar demais, reduzindo suas folgas de montagem a tal ponto que entrarão em atrito físico com as outras peças causando engripamento e se fundindo pelo atrito.

Como a queima da mistura combustível na câmara de combustão gera muito calor, este deve ser dissipado de alguma forma a fim de manter as peças dentro das tolerâncias de funcionamento. Por isso o motor tem uma válvula termostática que se abre ou fecha dependendo da temperatura do fluido de resfriamento. A função desta válvula é manter a temperatura do motor constante, independentemente do veículo estar parado em marcha lenta ou andando rápido em estradas. A válvula abre o suficiente para permitir que uma quantidade de fluido saia do motor e recircule através do radiador para se resfriar, retornando mais fria ao motor. Desta forma, a temperatura pode ser mantida dentro dos parâmetros definidos.

Então, por que ferve? Por que algo não está de acordo com o planejado. Se a válvula termostática não estiver funcionando adequadamente, seja por sujeira ou por defeito, não proverá a passagem do fluido na quantidade adequada e o motor poderá se superaquecer. A falta de água no sistema também é uma causa muito comum do motor esquentar demais. Isto pode acontecer por vários motivos: tampa do reservatório de expansão ou do radiador sem vedação permitindo escapar vapor de água, ou mangueiras ressecadas e rompidas, juntas queimadas ou selos que não vedam. Tudo isso leva a uma perda de água do sistema e impede uma troca térmica ideal. Uma simples manutenção de rotina poderá evitar dissabores como a verificação do nível da água no reservatório, a adição de fluido correto e especificado para seu tipo de motor, verificação das mangueiras de água, correias de ventilador e bomba d’água (quando aplicável), enfim o básico. Verifique sempre o marcador do termômetro no painel do seu carro, se o ponteiro está na faixa normal de funcionamento. Ao primeiro sinal de entrar na faixa vermelha, pare imediatamente o carro e verifique a causa. Nunca abra a tampa do reservatório da caixa de expansão com o motor quente, ou poderá se queimar seriamente com o vapor.

Mas (sempre tem um mas...) e se tudo estiver de acordo, viagem tranqüila, ponteiro do marcador de temperatura na faixa verde, e de repente o motor perde potência e sai aquele vaporzinho pelo capô? O que houve então? Isto aconteceu comigo há um mês atrás. Carro com manutenção em dia, tudo checado e de repente o motor pipoca e ferve na estrada. Parei imediatamente para ver o que poderia ter acontecido e nada... nada de água no reservatório, nenhuma gota de água no chão ou espirrada no motor. Cadê a água? Para evitar um calço hidráulico no motor, chamei um guincho e reboquei o carro até a oficina de confiança. Lá, o motor foi aberto e descobriu-se a causa. Uma trinca no cabeçote, escondida dentro de uma das galerias de água, permitiu o vazamento gradativo da água para o carter, misturando a água ao óleo e causando a lambança toda. Vai saber o porquê da trinca, se por defeito de fundição do cabeçote ou corrosão, já que não é uma região de atrito ou desgaste. O nível da água estava certo, mangueiras recém trocadas, enfim, faltou sorte. E o cabeçote teve de ser trocado.

Com isso, quero dizer que sempre podemos evitar a maioria dos imprevistos com uma boa manutenção, mas tem coisas que temos que passar e aí não tem jeito mesmo...

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* Marcos Serra Negra Camerini é engenheiro mecânico formado pela Escola Politécnica da USP, pós-graduado em administração industrial e marketing e engenharia aeronáutica, com passagens como executivo na General Motors (GM) e Opel. Também é consultor de empresas e é diretor geral da Tryor Veículos Especiais Ltda. Seu site é www.marcoscamerini.com.br.

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