10 de julho de 2026
Geral

FOB: em três anos cimento será usado para tratar canal

Marcelo de Souza
| Tempo de leitura: 3 min

Os resultados da pesquisa que usa cimento Portland no tratamento dentário, realizada pelo Departamento de Odontopediatria, Ortodontia e Saúde Coletiva da Faculdade de Odontologia de Bauru da Universidade de São Paulo (FOB/USP), devem chegar ao mercado em três anos. O cimento, concluiu a pesquisa, pode ser usado em tratamentos de canal em substituição a materiais tradicionais, até 7.000% mais caros.

É o que esperam os responsáveis pela técnica, a cirurgiã-dentista Ana Paula Camolese Fornetti e seu orientador, o professor-doutor Ruy Cesar de Camargo Abdo. “Dentro de três anos, aproximadamente, ele pode estar disponível no mercado, talvez antes disso, até”, afirmou Abdo. Segundo os pesquisadores, o cimento mostrou-se eficaz no tratamento da polpa dentária (nervo) em crianças com dente de leite.

O processo é simples: ao retirar o tecido cariado do dente, o dentista verifica se a cárie atingiu o nervo do canal. Se não atingiu, uma pequena placa de cimento é colocada para vedar a passagem de novas bactérias, permitindo que o nervo permaneça vivo e o dente de leite siga o ciclo natural até a substituição pelo permanente.

Os benefícios, de acordo com Abdo, são inúmeros. A formação da barreira vai impedir a passagem de novas bactérias para o canal dentário e, conseqüentemente, o nervo deste canal permanecerá vivo. No caso de morte do nervo, é preciso fazer o tratamento convencional para a retirada do nervo. Dependendo das condições do dente, há possibilidade até de extração precoce do dentre de leite.

Abdo explica que, a extração precoce prejudica o ciclo natural da formação da dentição permanente e, com certeza, quem tem que arrancar um dente de leite antes do tempo de cair, terá que usar aparelho, o que vai pesar ainda mais no bolso do paciente.

Outro benefício é o fato do cimento ser biológico, diferente do material usado normalmente para esse tipo de tratamento, o formocresol. “O formocresol tem formol em sua composição. O que acontece? Ele mumifica o dente. No caso do cimento, isso não ocorre porque é um material biológico, que não vai causar nenhum dano à saúde do paciente”, frisou.

Valor

O fator financeiro também pode ser levado em consideração, apesar do professor-doutor afirmar que quando se fala em ciência, não se considera custo. Mesmo assim Abdo ressalta que o cimento é muito mais barato do que os materiais disponíveis no mercado, como o MTA e o formocresol. O MTA é um material biocompatível que contém a mesma composição do cimento Portland, exceto por um componente, o óxido de bismuto.

“O óxido de bismuto confere radiopacidade quando for tirar um Raio X, ou seja, o MTA não aparece. No caso do cimento, quando tiro Raio X, vejo uma sombra. Fora isso, é a mesma coisa”, disse. No entanto, em termos financeiros o MTA é muito mais caro do que o cimento.

Um grama de MTA é vendido por R$ 210,00, enquanto o valor médio do quilo do cimento é de R$ 0,30. Já o frasco de 20ml de formocresol custa em torno de R$ 4,40. Apesar dessa diferença de custo, Abdo não acredita que o uso do cimento torne o tratamento dentário mais barato nos consultórios particulares.

“Não é porque é barato que vai baratear o tratamento. Esse é um material para ser usado na saúde pública, nas clínicas das universidades. É aí que vai fazer a diferença”, frisou. A pesquisa começou em 2005 e as etapas clínicas e avaliações, em 2006. Foram feitos estudos em 52 crianças com 68 dentes que precisavam de tratamento. Metade foi tratada com o cimento Portland e a outra metade com o formocresol.

Nos dois casos, Ana Paula e Ruy Abdo obtiveram 100% de resultados positivos, mas a diferença apontada pelos pesquisadores é fundamental: o cimento é biocompatível, algo que o formocresol não é. “Estamos na era biológica. No mundo inteiro estão buscando medicamentos biológicos, compatíveis com o organismo, como o caso das células-tronco. É tecido formando tecido”, apontou o professor.