09 de julho de 2026
Cultura

Sobre mundos: Dedé Mamata

Por Padre Beto | Especial para o JC
| Tempo de leitura: 4 min

Neto de avós anarquistas e de pais comunistas, Dedé é criado pelo avô em plena Ditadura Militar. Quando o pai é vítima de uma emboscada e desaparece, a família entra em crise, mas Dedé vive em outro universo. O adolescente é símbolo embrionário do que viria a ser as novas gerações brasileiras, ou seja, despolitizadas e consumidoras.

O filme de Dodô Brandão, “Dedé Mamata”, mostra uma lacuna deixada pela Ditadura Militar: a “desconstrução” de qualquer caminho para as utopias sociais e o preparo da base para o individualismo neoliberal. Nós somos educados com determinados valores e acompanhamos as transformações da sociedade e do mundo que acabam influenciando diretamente ou indiretamente a nossa vida. O problema é que, muitas vezes, não percebemos que civilização é simplesmente uma construção humana. Vivemos assim porque seres humanos foram, no transcorrer da história, moldando nossa condição social. Justamente este é o nosso maior e atual problema: a anestesia da razão. Esta anestesia possui sua origem na falta de exercício do pensar sobre os rumos para os quais deixamos a vida fluir.

Segundo Anthony Giddens, a “reflexividade” é o movimento de olhar o fundamento da ação para agir de novo. Esta “reflexividade” é o saudável e diário exercício que nos falta. Reflexividade é o ato de pensar e raciocinar sobre aquilo que somos, fazemos, a atividade profissional que desenvolvemos, políticos nos quais votamos, o papel do Estado, a nossa não organização popular, enfim, a história que estamos construindo. Mas, não somente pensar, a reflexividade se completa com um novo agir que surge da reflexão.

A conseqüência individual da anestesia da razão e, portanto, da falta de reflexividade, é o surgimento de uma sociedade melancólica. O melancólico é aquele que perdeu algo que lhe dá um vazio terrível, ele perdeu o seu próprio eu. Mas como é muito mais exigente admitir este vazio e ir em busca de preenchê-lo, ou seja, ir em busca de algo significativo, que dê sentido a sua vida individual e social, o melancólico escolhe o caminho mais cômodo. Ele se enche de atividades não somente para sobreviver, mas também para não refletir sobre sua vida. Sair da anestesia da razão significa pensar tanto na vida individual como na estruturas sociais e se conscientizar de algo muito simples: de que a vida só tem sentido se for vivida por todos com prazer.

Para Nietzsche a nossa existência só se desenvolve no prazer da alegria. O filósofo pregava o conhecimento alegre, o que ele chamava de “Gaia Ciência”. A função do saber, do conhecimento, da escolaridade, não era para o filósofo a possibilidade de simplesmente se encaixar no mercado de trabalho e ser uma peça a mais na máquina que nos utiliza, mas a construção de uma vida verdadeiramente feliz.

Por isso, o mito ideal pregado por Nietzsche é Dionísio, o deus da alegria, da dança, do vinho, do prazer. Dionísio simboliza tudo aquilo que nos faz verdadeiramente rir, nos liberta da rotina e resgata um sentido de vida. Nietzsche não está falando daquele humor que ameniza a nossa desgraça social e nos faz sobreviver em uma sociedade com pouco senso de justiça, individualismo, pobreza, violência e corrupção.

É uma alegria que surge através, durante e depois do repúdio, da indignação frente à ineficácia de nossas instituições em organizarem uma sociedade do bem-estar. Para se alcançar esta alegria do conhecimento é fundamental uma maturidade individual e social. Vivemos alegrias momentâneas para sobrevivermos em uma triste sociedade. Isso não é maturidade.

Maturidade é a capacidade de me impor uma frustração, em curto prazo, para se ter uma compensação em médio e longo prazo. Nós nos esforçamos, passamos por situações desagradáveis, sofrimentos, para alcançar algo verdadeiramente e duradouramente bom. Infelizmente, fazemos o inverso: buscamos momentos passageiros de alegria, rápidas satisfações prazerosas, para continuarmos a viver em uma sociedade infeliz. A maturidade tanto individual como social é alcançada, quando aprendemos a fazer o contrário: buscamos o confronto com nossos problemas mais sérios para, mais tarde, podermos ter uma satisfação duradoura. Aqui está o único sentido do sofrimento. A cruz só vale a pena se for passageira e se nos levar à ressurreição.

Uma sociedade que não discute seus problemas acaba gerando melancólicos que nascem, crescem e morrem, e egoístas compulsivos que procuram se salvar como podem. O que temos em comum é uma realidade grotesca, sobre a qual fazemos piadas, um humor que nos faz rir de nossa contínua desgraça, mas não nos liberta verdadeiramente. Para sairmos da melancolia da razão precisamos levar mais a sério a nossa alegria.

* Para entrar em contato com o padre Beto, acesse o site www.padrebeto.com.br.