08 de julho de 2026
Geral

83% dos alunos têm aulas com professores insatisfeitos

Por Antônio Gois (Folhapress) | Com Redação
| Tempo de leitura: 3 min

Os professores brasileiros, com exceção apenas de seus colegas uruguaios, são os mais insatisfeitos com seus salários, segundo relatório divulgado na última semana pela Unesco, no comparativo entre 11 países em desenvolvimento. O estudo revela que 83% dos alunos do ensino primário (equivalente, no caso brasileiro, aos quatro primeiros anos do ensino fundamental) estão em classes cujos docentes se declararam insatisfeitos com os salários.

O resultado do trabalho não surpreende os profissionais de Bauru. Eles afirmam que sempre conviveram com os reflexos da má remuneração.

“A gente já sabia há bastante tempo que a carreira não era valorizada. Há vários anos a coisa já era complicada. A educação nunca foi prioridade e os salários sempre foram defasados. Historicamente, nestes últimos anos, a coisa tem arrochado ainda mais”, comenta Maria da Graça Mello Magnoni, coordenadora do curso de pedagogia da Universidade Estadual Paulista (Unesp).

Para ela e para outras integrantes da categoria, o resultado do estudo reflete a realidade. O relatório também mostra, como já evidenciado em outros estudos da Unesco, que as taxas de repetência no ensino primário no Brasil destoam, e muito, das de outros países. No Brasil, a repetência chega a 19% dos alunos no ensino primário, mais que o dobro da verificada no segundo país com maior percentual, o Peru, com 8,8%.

“A gente sabe em tudo o que implica uma boa educação. Sozinha ela não consegue nada, mas pode contribuir com mudanças, alterações. E essa não é a intenção desse sistema, dessa sociedade”, diz Magnoni.

Avaliação

O estudo da Unesco, intitulado “Um Olhar para o Interior das Escolas Primárias”, faz parte do programa WEI (sigla, em inglês, de Indicadores Mundiais de Educação), que monitora a educação em países em desenvolvimento.

Sobre o alto grau de insatisfação dos professores brasileiros com seus salários, o representante da Unesco no Brasil, Vincent Defourny, destaca outro dado do relatório. Ele mostra que o percentual de alunos cujos professores trabalham em mais de uma escola chega a 29% no Brasil, o maior entre todos os países analisados.

Não por acaso, os outros dois países com maiores percentuais nesse quesito são Argentina e Uruguai, onde igualmente o nível de insatisfação com o salário chega a mais de 80%. “Todo mundo que trabalha sabe que uma dupla jornada afeta o desempenho. Isso tem certamente impacto em sala de aula”, diz Defourny.

A dupla jornada, no entanto, em muitos casos é a única saída para contornar uma faixa salarial equiparada à paga para profissionais cuja formação não ultrapassa o ensino médio no Brasil. A ponderação é da professora de educação infantil da rede municipal de ensino de Bauru Angela Edilaine Lemos de Campos. Ainda assim, com dois trabalhos, o orçamento familiar não é confortável e deve ser levado a rédeas curtas.

O comentário é de uma colega dela, a também professora Heloísa Helena Santana Rocha, que leciona em duas escolas, sendo uma municipal e outra estadual. “A educação deveria ser valorizada. Sem ela, o País não vai”, conclui.

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Infra-estrutura tem menos queixas

Na maioria das situações avaliadas pelo estudo da Unesco (como a infra-estrutura das escolas ou condições de oferta do ensino), o Brasil se encontra perto da média dos países analisados - não foram incluídos dados de países desenvolvidos.

Os professores, por exemplo, apesar do alto grau de insatisfação com os salários, não se mostraram tão insatisfeitos em relação ao número de alunos por turma, a participação dos pais de alunos na escola ou a oferta de material didático.

No caso do número de alunos por turma, por exemplo, 34% deles estudam em classes cujos professores demonstraram algum grau de insatisfação com a questão. A média no ensino primário brasileiro é de 27 crianças por sala de aula. A maior relação foi encontrada na Índia (51 por sala) e a menor, na Malásia (18 por sala).

Mas o Brasil aparece com um alto percentual de alunos em escolas onde há muita rotatividade do corpo docente. Segundo o estudo, 67% dos alunos estavam em escolas onde mais de 30% do corpo docente estava há menos de cinco anos no cargo. Foi o terceiro maior percentual, após Uruguai (85%) e Malásia (76%).