08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

A valsa e o forró


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Eu pensava que entender as mulheres era difícil, mas entender os clubes da terceira idade é mais difícil ainda. Veja só uma das situações por que nós, músicos, passamos.

No intervalo do baile eu estava descansando para a próxima seleção, quando entra no camarim um senhorzinho e sua esposa que diziam estar comemorando 60 anos de casamento, e para isso pretendiam dançar a mais linda valsa que tivéssemos no repertório. Ambos trajavam uma linda roupa branca. Não tive dúvidas, chamei meus companheiros Décio Voltolim (sanfona) e Zé Bagunça (violão) e juntos executamos um Danúbio Azul daqueles que arrepiam os últimos fios de cabelo.

O casal de velhinhos mais parecia um casal de crianças de tanta saúde e disposição, ambos pulavam e rodopiavam por todo o salão, juntos e depois separados, tudo muito bem ensaiado, e antes mesmo dos últimos acordes as quase 500 pessoas já estavam aplaudindo em pé a brilhante apresentação, e eu, bem, eu pensava estar abafando, quando o presidente da casa subiu no palco berrando feito um cabrito, nervoso feito um pit bull e foi logo desferindo as seguintes palavras: “Nunca mais vocês vão tocar aqui, comigo na presidência, nunca mais, nunca mais”. E eu lhe perguntei: “Por que, sr. presidente?”. “Porque essa valsa é valsa e aqui eu só aceito valsa de forró.”

Isso já faz uns dois anos e nunca mais fomos contratados porque tocamos Danúbio Azul. E se você não conhece pelo nome é aquela valsa assim: la...ra ra ra ra, plim plim... plim plim.

Jeronymo Bigarelli Neto - RG 16.156.691