08 de julho de 2026
Geral

Mulheres preferem chefe homem

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 2 min

“Pouco a pouco, as mulheres estão dominando o mercado de trabalho”. Esta é uma frase que estamos acostumados a ouvir a torto e direito e que quase ninguém questiona. Pelo contrário: na maioria das vezes, a gente até concorda. Afinal, quem não conhece alguém que não seja chefiado por um indivíduo do sexo feminino?

O que a maioria das pessoas não sabe é que por trás dos discursos igualitários existe um complexo mecanismo de exclusão, que dificulta - e muito - a ascensão dos mulheres no mercado de trabalho.

Estudo realizado recentemente pela pesquisadora da Universidade de Brasília (UnB) Amanda Zauli-Fellows, com funcionários da Câmara do Deputados, constatou que as oportunidades de ocupar cargos de direção são menores para elas do que para eles. Hoje, apenas um quarto dos cargos de chefia da Casa é ocupado por mulheres, embora quase metade do quadro de funcionários do órgão seja composto por indivíduos do sexo feminino.

Apesar de toda essa disparidade, a pesquisa constatou que a maioria dos servidores da Câmara (tanto do sexo masculino quanto do feminino) afirmou que as mulheres têm a mesma capacidade que os homens para ser chefes.

“Para os participantes da pesquisa, o que importa é a competência dos indivíduos, independentemente de serem homens ou mulheres”, explica Zauli-Fellows. Mas essa visão, aparentemente igualitária, esconde uma séria contradição.

A pesquisa constatou que 85% das mulheres e 95% dos homens preferem ser chefiados por indivíduos do sexo masculino. “Há uma contradição entre o discurso e a prática”, afirma Zauli-Fellows.

Para ela, esse discurso é um reflexo da cultura do patriarcalismo na sociedade brasileira. “As desigualdades existem e isso é fácil de ser notado. Apesar disso, as pessoas afirmam crer que as oportunidades são as mesmas para todos”, pondera ela. O estudo apontou que a discriminação costuma ser mais percebida pelas funcionárias que se encontram fora dos cargos de chefia. “Já entre as que estão em posições de liderança, a percepção é de que todos têm as mesmas chances de subir na carreira”, relata Zauli-Fellows.

Naturalização das diferenças

O professor do departamento de psicologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru Luiz Carlos Canêo lembra que existe na sociedade brasileira uma visão biologizante dos gêneros. “Historicamente, o papel da mulher foi definido como ela sendo mais sensível, dócil e propensa a trabalhos manuais. O homem, por outro lado, seria mais objetivo, competitivo e focado e resultados práticos”, explica.

“Na cultura ocidental, a mulher tem ocupado, ao longo dos tempos, o espaço privado (gineceu, em grego) e o homem tem se ocupado dos negócios públicos (da ágora, espaço onde eram deliberados os assuntos de Estado na democracia ateniense)”, lembra a historiadora e pesquisadora da Unesp de Assis Lilian Henrique Azevedo.