10 de julho de 2026
Pesca & Lazer

História de pescador: Pescaria feita com espingarda pica-pau


| Tempo de leitura: 3 min

Tenho um amigo, o José Carlos Volpato, que tem um rancho no rio Batalha, em Avaí. Ele sempre me convida para passarmos umas horas lá no rancho e sempre digo a ele que um dia dará certo. Ele tem um tanque, no qual cria traíras, das grandes. Chega a pesar 2 quilos ou mais cada traíra.

No mês passado, ele me convidou e disse pra eu levar minha espingarda, da qual eu tanto falo, porque lá no tanque sempre aparece algum jacaré. De fato, tenho mesmo uma espingarda pica-pau importada, da marca “Enrique Haporte”. Hoje, essa marca não existe mais. A espingarda foi herança do meu avô. Imagine só a idade da bruta, de espoleta e carrega-se pela boca.

Resolvi, então, aceitar o convite dele. Ele disse: “Minha esposa não vai porque, além de estar grávida, está com enjôo”. O filho caçula dele já tem 10 anos. Saímos no sábado à tarde, na caminhonete dele, para voltar na segunda-feira. Chegamos lá e ele foi preparar as varas de pesca. Eu, então, fui carregar a pica-pau. Fiz uma boa carga com chumbo grosso.

Durante a noite choveu muito e não pudemos pescar. Então, ele convidou dois vizinhos e jogamos truco até meia-noite. Assim que as visitas saíram, fomos dormir. Quando ele já estava indo dormir, ele disse que a esposa Cidinha ligou dizendo que teve desejo de comer codorna frita. Ele disse para ela que ainda bem que o Eselino estava lá e trouxe a espingarda, pois assim dava pra sair e ver se dava pra conseguirmos alguma codorna.

Assim, saímos à procura da codorna. Não dormimos mais e, assim que clareou o dia, o Zé, como é conhecido, me chamou para preparar o café. Botei a espingarda a tiracolo e fui anda, em frente ao lago. As traíras estavam em alvoroço. Para quem não sabe, quando o sol aparece, elas ficam na flor da água esquentando as costas...

O Zé também tem uma égua que usa na charrete. Ele estava pastando sossegado e vi uma codorna ciscando, comendo algum grão de milho. Olhei bem a cena e pensei que, se eu atirasse naquela posição na qual eu estava, iria matar a codorna e quebrar a perna da égua, ainda mais com a quantidade de carga que fiz com chumbo grosso. Tenho que ir no sentido contrário, pensei.

Afastei um pouco e fui agachando de ponta de pé. Foi quando eu ouvi um barulho vindo de uma moita ali perto. Olhei e era uma capivara. Nem pensei duas vezes: mirei e puxei o gatilho. A capivara deu um assovio, pulou muito alto e logo caiu morta.

O tiro foi tão forte que o eco foi rio abaixo. Ouviu-se a uns 10 km de distância. A égua levou tamanho susto que deu um pulo e, num um coice, atirou a égua para onde eu estava. Como eu estava bem em frente ao lago, os chumbos também mataram dez traíras que estavam na flor da água tomando sol. O Zé chegou e disse: “- O que você aprontou?”.

Eu estava tirando as traíras da água com uma vara de bambu e jogando na grama. Ele olhou aquela cena e disse: “- Vamos por isso tudo em sacos e vamos embora porque se a polícia ambiental nos pega nós estamos fritos”. Nós iríamos ficar sem a caça, sem a pesca, sem a espingarda e ainda com uma bela multa.

Botamos tudo na caminhonete e às 8h nós já estávamos em Bauru, na casa do Zé. Chegando na casa dele, a Cidinha ficou assustada e perguntou o que havia acontecido. Eu disse ‘nada’. Vamos no fundo do quintal que eu conto o que está acontecendo. Abri o saco das traíras, dei a codorna a ela e disse: essa é a sua. Vai limpar e fritar pra matar o seu desejo.

Ela me agradeceu muito e disse: “Bem que o Zé sempre disse que você tem uma pica-pau que faz coisas do arco da velha”.

Resumindo, veja só: com um simples tiro de pica-pau, fizemos uma caçada e uma pescaria.

Eselino Ariosi é pescador e contador de história.