08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Clélia Molina


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Pouca gente sabe, mas nós duas vivemos uma intensa e curta época de muita cumplicidade, quando, além de preparar seu filho Cássio para as provas vestibulares, que foi um sucesso, por sinal, nos intervalos conversávamos sobre sua eterna e única paixão; o marido falecido precocemente e sem um único aviso para uma saída tão brusca.

Naquelas noites de intensos estudos e longas prosas regadas com cafezinho, aliás era o líqüido que ela mais gostava de ingerir, demonstrou vontade de fazer uma declaração pública de saudade e de homenagem ao marido, a quem, segundo ela, devia todos os sonhos e realizações. Tomou uma página do Jornal da Cidade a sua mensagem. Sorria o tempo todo, mostrando o jornal que não soltava das mãos. Ia mostrando para os amigos e conhecidos. Parecia uma aluna de 1.ª série com o boletim de parabéns. Só a felicidade que vi, valeu a pena.

Ela havia retomado a adolescência naquele anúncio de mulher. Então, sutilmente, nas folgas do curso intensivo de redação do filho, eu ia rabiscando algumas de suas afirmações, dúvidas e esperanças, de uma mulher como qualquer outra, dona de casa de primeira linha, pois não nascera rica, dedicada à cozinha, e não conheci ninguém que engomasse e passasse uma camisa como Clélia. E não era egoísta. Ensinou-me a fazer as diferentes espécies de goma. Até com gelatina.

Nasceu para reinar com sua família, na sua casa, que era o lugar que mais gostava. Mas Deus, com suas surpresas, transformou-a numa empresária, do dia para a noite.

Quanto sofrimento isso trouxe à mulher Clélia. Sem respaldo do amigo José Fortunato, filhos pequenos e sem intimidade com a Ajax, feitos desastrosos impediram a continuidade da obra da família. Transformou-se em Fênix para retomar os vôos seguintes. Muito cobrada por ser quem era, o legado virou um pesadelo. Isto, ela logo percebeu. Daí para frente, a cidade conheceu o desfecho da empresa. Era muito grande tudo para ficar em segredo.

Você lamentou tanto a partida súbita de seu marido e acabou copiando o estilo. Saiu sem se despedir, vestindo preto e sem imaginar a imensidão da saudade que deixou.

À família, nosso lamento e solidariedade.

Catarina Carvalho - professora